De Chirico e as cidades da mente

Exposição na Fundação Iberê Camargo revê diálogo entre memória, presente e futuro na criação

CAMILA MOLINA , PORTO ALEGRE, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2011 | 03h09

A recorrência de uma mesma praça; cidades melancólicas formadas por construções da arquitetura antiga e clássica, das quais emergem sombras e figuras humanas, estátuas ou manequins isolados; o chão quase ocre, a luminosidade do céu em camadas verdes e amarelas - quando Giorgio de Chirico (1888-1978) começou a desenvolver, nos anos 10, a pintura metafísica, ele tomou o espaço arquitetônico como o mote para a representação de um universo simbólico repleto de enigmas. Mas, ainda que elas tenham um aspecto onírico, o pintor falava em revelar "a verdade" com suas obras. Por meio da estranheza figurativa, que se volta ao passado, surgia um tempo suspenso no qual era possível, antes de mais nada, compreender o homem.

"O que nos traz De Chirico hoje? Uma atualidade, a descoberta de que somos o resultado da civilização", diz a arquiteta italiana e crítica Maddalena d'Alfonso, curadora da mostra De Chirico: O Sentimento da Arquitetura, antologia do artista que será inaugurada hoje na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, onde ficará em cartaz até 4 de março. Exposição com mais de uma centena de obras - 45 pinturas, 10 esculturas e 66 gravuras - executadas pelo pintor entre as décadas de 1930 e 70, que refletem seu pensamento metafísico, a mostra, em 2012, será apresentada ainda na Casa Fiat de Cultura de Belo Horizonte (20 de março a 17 de junho) e no Masp, em São Paulo (29 de junho a 20 de setembro).

A exposição é formada por obras pertencentes à coleção da Fondazione Giorgio e Isa de Chirico, sediada em Roma, na casa onde o artista greco-italiano viveu a partir de 1944. É fruto de uma pesquisa realizada por Maddalena por cerca de dois anos a partir de convite da Fundação Iberê Camargo, interessada em apresentar uma mostra de um dos mestres do pintor gaúcho que dá nome à instituição. A exposição faz parte também da programação do Momento Itália/Brasil 2011-2012, que exibirá mostras de outros mestres italianos como Amedeo Modigliani e Caravaggio.

As obras da década de 1910 e do início dos anos 20 costumam ser definidas como as mais importantes da pesquisa de Giorgio de Chirico, uma vez que são símbolos das criações da pintura metafísica, que incluiu seu nome na história da arte. Por questões práticas, porém, nenhuma delas está presente na exposição. "Poderíamos tentar envolver museus e instituições para exibir obras da primeira fase do artista, mas a exposição só poderia ficar em um museu brasileiro no máximo por três meses. São telas muito valiosas, das quais os proprietários não gostam de se desfazer por muito tempo", diz a curadora. Assim, Maddalena optou por uma mostra que pudesse viajar pelo Brasil - a primeira de De Chirico - e escolheu como ponto de partida apresentar como recorte as obras que o artista realizou depois de sua polêmica briga com o grupo surrealista.

Crise. O poeta francês André Breton, que admirava De Chirico e liderava os surrealistas, afirmou em 1925 que o pintor metafísico "estava morto" por persistir num caminho figurativo (e não da abstração, em voga) e manter ligação com "a forma, com a arte visual no seu sentido mais histórico", explica a curadora. Em crise, De Chirico, resolveu mergulhar ainda mais nos mestres do passado. As obras da exposição são, na maioria, realizadas pelo artista nos anos 60 e 70 (nesse período, como forma de provocação, ele cria telas, mas as assina com datas anteriores, de seu período áureo). De uma maneira geral, o artista faz, diz Maddalena, uma espécie de "antropofagia" durante toda a sua carreira - incorpora elementos da arquitetura italiana, alemã, francesa e de Nova York (lugares em que viveu) nas obras que tratam de um espaço psicológico. Cria, também, a representação de espaços interiores imaginários fixando, enfim, "elementos da memória antiguíssima e do seu presente, o que cria um curto circuito".

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