De Bach a Gismonti, Joanna MacGregor dá lição de interpretação

De Bach a Gismonti, Joanna MacGregor dá lição de interpretação

Com suas longas tranças afro-baianas, a pianista londrina Joanna MacGregor não surpreendeu apenas visualmente o público típico da Sociedade de Cultura Artística em concerto com a Britten Sinfonia na temporada de 2007 no saudoso teatro da rua Nestor Pestana. O repertório abrangente e diversificado, que não respeitava rótulos, também embasbacou o público. Mas, sobretudo, aquele concerto valeu pela qualidade da música que Joanna e os excelente músicos da Britten Sinfonia produziram. De São Paulo eles foram para Montevidéu e Buenos Aires. Nesta última cidade, o concerto foi gravado ao vivo no Teatro Coliseu em 3 de maio de 2007 - e o resultado chega agora ao mercado internacional no CD do selo SoundCircus intitulado Joanna MacGregor - Live in Buenos Aires.

Crítica: João Marcos Coelho, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2010 | 00h00

O programa é aquele mesmo que encantou o público paulistano. Uma interpretação vibrante do Concerto em Ré Menor BWV 1052 de Bach; a leitura precisa do Concerto em Ré Maior para orquestra de cordas de Igor Stravinski. Competindo com um dos mais populares concertos para teclado e cordas do repertório, o russo impõe-se criando música ao mesmo tempo acessível e densa - jamais é banal. É música neoclássica, mas e daí? Soa bem; e, convenhamos, ninguém precisa ser revolucionário militante o tempo todo.

Daí em diante, Joanna dá um verdadeiro show de ecletismo, bom gosto e talento. Excelentes seus arranjos para três peças de John Dowland, o celebrado compositor inglês das canções com acompanhamento de alaúde da passagem dos séculos 16/17. Ao piano, juntam-se o contrabaixo e violas, para construir belas versões das conhecidas Forlorn Hope Fancy e Mr. Dowland"s Midnight.

Joanna tem uma ótima pegada como arranjadora - qualidade que esbanja em Forrobodó e Frevo, dois clássicos de Egberto Gismonti. A noitada fecha em grande estilo, tipicamente porteña. Primeiro, a estilização refinada do tango em Last Round, para orquestra de cordas, do argentino Osvaldo Golijov (peça que ouviremos na Sala São Paulo em outubro próximo); em seguida, dois Piazzolla: a Milonga del Angel. num emocionado arranjo para piano, violino e contrabaixo; e Libertango, em piano solo.

Pelo seu visual, a pianista inglesa tem tudo para atrair novos públicos para a chamada música clássica; e pela qualidade da música que pratica, sem o menor preconceito, encarna a persona mais saudável que pode ter o músico clássico neste começo de século 21. Sem dizer nada, apenas pulando de Bach a Stravinski, e de Dowland a Gismonti, Golijov e Piazzolla, MacGregor sai da pele dos intérpretes conservadores, que têm pavor de qualquer coisa que signifique não seguir partitura. Ela improvisa ao lado de grandes músicos de jazz (moderno, atual, free, não os veteranos); arranja peças do repertório erudito do passado, seja ele do século 16 ou contemporâneo. Em suma, não tem receio de se expor. Pois isso é o que as plateias de hoje em dia mais querem. No Brasil, há pelo menos um músico de igual desenvoltura e talento: o violoncelista Dimos Goudaroulis. Não dói mirar-se no exemplo desse par de artistas de exceção. Ao contrário, só traz sequelas positivas para a vida musical.

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