De Anti-Cristo a herói supremo da cultura

Mostra lembra os 400 anos da morte de Caravaggio, pintor perseguido pela Igreja e pela Justiça, hoje reverenciado por sua arte revolucionária

James Hall, Guardian, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2010 | 00h00

O Vaticano acaba de emprestar seu maior retábulo da época da contrarreforma, o Sepultamento, de Caravaggio, para a mostra que lembra os 400 anos de morte do artista, na Scuderie del Quirinale, em Roma, até 13 de junho, mas será surpreendente se o papa Bento XVI fizer o breve trajeto até o Palácio Quirinal para apreciar a mostra. Não tanto pelo fato de o artista ser um gênio homicida denunciado pelos seus quase contemporâneos como um anti-Cristo vindo para destruir a pintura. Afinal, Caravaggio recebeu o perdão papal por seu crime capital, e a maioria dos crimes da arte é matéria para a estética, que é discutível. Ele ficou famoso, primeiro em Roma, com os quadros mais sensuais de jovens jamais pintados. Vários foram encomendados por um cardeal que, como o artista, talvez fosse pederasta, enquanto outros foram adquiridos por outro cardeal (sobrinho do papa) que provavelmente era homossexual.

Se há quatro século era fugitivo da Justiça e criminoso em série, Caravaggio hoje é reverenciado como supremo herói da cultura. A exemplo de Van Gogh, Pollock e Bacon, a fama de Caravaggio é alimentada por aparente simetria entre sua vida tempestuosa e sua arte crua, revolucionária. Ele costuma ser definido como o primeiro artista moderno. E 50 anos atrás, um historiador da arte disse que qualquer um seria perdoado por achar que a contribuição de Caravaggio à civilização estava em algum ponto entre Aristóteles e Lenin; agora, poderíamos acrescentar Nietzsche e marquês de Sade.

Maneirismo. Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610) nasceu em próspera família da cidade de Caravaggio, perto de Milão. Seu pai, Fermo, trabalhava como construtor e arquiteto. O jovem fez seu aprendizado com um antigo pupilo de Ticiano, em Milão, e partiu para Roma em 1592. Nesse período dominava o estilo conhecido hoje como maneirismo: uma composição movimentada, difusa com figuras idealizadas em complexas poses; cores quentes; perspectivas profundas. Mas no fim do século, a arte romana foi ficando em parte mais naturalista, com destaque na claridade, no rigor, no drama e emoção humanos.

Caravaggio criou e explorou esse gosto pelo naturalismo. Sua inovação gerou um gênero iluminado e brilhante de cores frescas, com uma ou mais figuras a meio corpo em escala imponente. Usava como modelos amigos, amantes, pessoas do povo, ciganos, prostitutas, gente da vida real - e a si próprio, com sua pele morena. Essas figuras vulgares eram retratadas ao lado de naturezas-mortas ofuscantes. Segundo a crença de Caravaggio, pintar flores era tão difícil quanto pintar uma figura.

Com razão ele é considerado mestre do chiaroscuro, criador da ênfase e do alívio mediante contrastes de luz e sombra. Isso faz parte de sua herança milanesa, pois Leonardo da Vinci vivera e trabalhara naquela cidade um século antes: Caravaggio teria estudado seu retábulo da Virgem das Rochas, hoje na National Gallery. Mas enquanto Da Vinci tentava atenuar as transições, os contrastes de cor e luz de Caravaggio são agressivamente marcados, quase heráldicos na clareza e frontalidade geométrica, destacados contra fundos escuros sem céu. O ousado imediatismo das pinturas de Caravaggio deve muito ao seu método de retratar direta e rapidamente o modelo vivo, sem fazer esboços. Ele traçava as linhas principais sobre fundos pintados em cores escuras. Para as composições com várias figuras, é possível que tenha criado quadros vivos em ambiente sem luz natural, usando lâmpadas (como foi recriado no filme Caravaggio, de Derek Jarman, e em O Poder da Arte, de Simon Schama). O site da National Gallery informa que a técnica de Caravaggio "era tão espontânea quanto o seu temperamento". Mas pouco é deixado ao acaso ou ao impulso. Não estamos diante de instantâneos. A maioria dos gestos e poses é lenta e ritualística e não instintiva ou imediata.

A arte de Caravaggio pode ser mais entendida como uma representação do "momento maquiavélico". Ele viveu numa época em que o termo maquiavélico entrava no uso comum, muitas vezes no sentido de abuso. Mas ainda era reconhecida nele uma enorme força explicativa: o massacre dos puritanos no dia de São Bartolomeu em Paris, em 1572, foi atribuído mais a maquiavélicas manobras políticas do que a uma ideologia religiosa. A intensidade regular (e, até certo ponto, monótona) da obra de Caravaggio decorre de estar ele tão interessado na história política e natural da religião quanto na história espiritual. Seu Davi é narcisista, oportunista e realista, antes de ser profeta e futuro autor dos Salmos Penitentes. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

QUEM É

CARAVAGGIO

PINTOR

CV: Michelangelo Merisi da Caravaggio nasceu em 1571, em Milão. Talentoso, surgiu na cena artística romana em 1600 e, desde então, nunca lhe faltaram comissões ou patronos. Considerado um farrista inconsequente, viveu com problemas com a polícia. Em 1606, matou um jovem durante uma briga e fugiu de Roma, com a cabeça a prêmio. Sofreu várias tentativas de assassinato até morrer em 1610.

O ARTISTA SOB OUTROS OLHARES

Teatro

Atores do grupo italiano Malatheatre recriaram, em 2008, o quadro A Ressurreição de Lázaro, pintado por Caravaggio em 1609. O ato fez parte de uma série de 17 quadros vivos encenados pelos artistas.

Fotografia

Em 2000, o artista brasileiro Vik Muniz apresentou sua versão do quadro A Descida da Cruz, que Caravaggio pintou entre 1602 e 1603. Muniz também fez uma leitura particular de Narciso, pintado em 1599.

Cinema

Uma cinebiografia alegórica e sensual do pintor italiano: esse foi o retrato apresentado pelo cineasta Derek Jarman em Caravaggio (1986), em que recria a textura densa e visceral de seus principais quadros,

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