De amor e de sombras

Ary França protagoniza peça de Arthur Miller inédita no Brasil

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2013 | 02h12

A Descida do Monte Morgan é uma peça de Arthur Miller que nunca havia sido montada no Brasil. Tem sua estreia marcada para hoje, em São Paulo, no Teatro Nair Bello. Apesar do ineditismo, quem lá estiver terá a impressão de que o argumento do afamado dramaturgo norte-americano carrega algo de vagamente familiar.

Basta puxar pela memória. No romance de Jorge Amado, Dona Flor hesita em ceder às investidas de Vadinho, o marido morto, que resolve reaparecer. A viúva, àquela altura, já estava casada com outro, um farmacêutico de bom coração. Mas Vadinho, no fim das contas, era só um espírito. Que mal poderia haver? Ela consegue, assim, conciliar o amor avassalador e febril de um com o afeto seguro e pacífico que o outro lhe oferece.

Em A Descida do Monte Morgan, o protagonista Lyman é capaz exatamente da mesma proeza. Constrói uma vida que não abre mão nem do equilíbrio nem da paixão. A diferença é que nenhuma de suas mulheres é um espírito. As duas estão vivas. E, para seu terrível infortúnio, acabaram de se conhecer.

O marido bígamo, vivido na atual montagem por Ary França, sofreu um acidente. Espalhada a notícia, Leah e Theodora correrem ao hospital para vê-lo. Mas, ainda na sala de espera, ambas descobrem que estão casadas com o mesmo marido.

É precisamente nesse ponto que Miller começa a dar indícios das particularidades de sua obra. Aqui, não há o realismo fantástico de Amado para apaziguar os dramas de consciência. Existe humor, mas cada riso tem um travo amargo. O imbróglio conjugal abre caminho para questionamentos existenciais. Perguntas que o dramaturgo norte-americano faz questão de não responder: como seguir o próprio desejo sem nublar o desejo de quem está ao redor?

"Não há coerência. Não há resposta definitiva. Ele te dá pistas. Mas não sabemos nem no que ele, como autor , acredita", observa o diretor Luiz Villaça - cineasta responsável por filmes como O Contador de Histórias (2009) e Cristina Quer Casar (2003) e que faz agora sua segunda incursão pelo teatro. "Quando resolvi montar a peça, fiz algumas leituras do texto com atores. E não houve uma única ocasião dessas que não tenha acabado com uma grande discussão. Todo mundo sem saber até que ponto ele estava certo ou errado."

Arthur Miller construiu um protagonista sedutor, ambíguo. Quanto mais conhecemos de suas motivações, suas dúvidas e seus afetos, mais difícil se torna tomar partido. "Como em todo bom texto, não existe um posicionamento moral desse personagem. Apenas ele se colocando diante da plateia, se perguntando se está fazendo a coisa certa ou não", diz Ary França. "O seu fascínio, aliás, está justamente aí. É alguém que se culpa, às vezes. Mas, faria tudo de novo se fosse preciso."

Preso a uma cama de hospital, o acidentado Lyman Felt faz idas e voltas no tempo para tentar esclarecer o percurso que o levou a uma vida "dupla". Quando conheceu Leah, Lyman apaixonou-se. Começaram a ter um caso. Ela ficou grávida. Ele resolveu ficar com ela. Mas como terminar o casamento com Theo? Lyman também a amava. Também precisava dela. É outro tipo de vínculo. Mas quem dirá qual dos dois é dispensável, qual deles é mais ou menos nobre?

"Um homem pode ser fiel a si mesmo ou aos outros", diz o protagonista em certa passagem. "Mas não a ambos. Pelo menos não sendo feliz. Todos nós sabemos disso, mas admitir isso é imoral. A primeira regra da vida é a traição. Por que mais aqueles rabinos escolheram Caim e Abel para começar a Bíblia?"

Menos conhecido que outros títulos, como A Morte do Caixeiro Viajante e Panorama Visto da Ponte, A Descida do Monte Morgan foi escrito tardiamente, em 1991. "Acaba sendo uma reavaliação da vida. Tenho certeza de que muito do que está ali tem a ver com o Miller", considera Villaça.

Faz sentido olhar para os ecos autobiográficos. Assim como o dramaturgo, o protagonista tinha ascendência judia. E, apesar de descrito como "homem de negócios", o personagem não sublima certa atração pela poesia. Também não convém esquecer a similaridade nas confusões amorosas: o autor teve três casamentos.

Nesta obra da maturidade, pode-se ter a impressão de que Miller, conhecido por sua militância, se afastava da política e passava a mirar o interior da casa burguesa. Sim e não. Invariavelmente, o escritor usou dilemas individuais para iluminar assuntos de interesse coletivo. Outro dado que torna a peça particular, mas não dissonante: ao tomar um episódio de bigamia, ele continua, em última análise, tratando de liberdade - seu tema maior. Uma discussão que, como se pode ver no palco, jamais é apolítica. Em seus embates passionais, Lyman e suas mulheres trazem atrás de si os rastros das próprias convicções.

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