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Davy Chou abre o 1° Festival Asiático

Cineasta vem falar das particularidades da produção cambojana no primeiro festival de cinema

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

02 de agosto de 2012 | 03h12

Davy Chou desembarca hoje em São Paulo como convidado especial do filme de abertura do Traffic - 1.º Festival de Cinema e Cultura Asiática da maior cidade brasileira. Davy quem? Neto de um lendário produtor do Camboja - Van Chann -, Davy, criado na França, virou a ponta de lança de um movimento não tanto para desenvolver o cinema no país - ele próprio diz que seria 'exagerado', numa entrevista por telefone -, mas de um compromisso para tentar reerguer o que já foi uma das cinematografias mais importantes da Ásia.

Justamente neste momento em que o cinema asiático ganha espaço nos grandes festivais de cinema - filmes das Filipinas, da Tailândia, China, Coreia -, Davy Chou vem falar das particularidades da produção cambojana. Até pelas condições históricas que o Camboja viveu, durante o regime do Khmer Rouge, a produção foi paralisada e os artistas perseguidos por um regime que se especializou em justificar a fama de sanguinário. Entre 1960 e 1975, antes do advento do Khmer Vermelho, o Camboja produziu cerca de 400 filmes. Tinha cinemas, uma elite intelectualizada, um público animado. A repressão acabou com essa idade de ouro.

Criado na França, à sombra do culto a um avô que não conheceu, Davy Chou sempre sonhou em reencontrar suas origens. O filme Le Sommeil d'Or, O Sono de Ouro, que abre hoje o Traffic, nasceu dessa vontade. É um documentário sobre diretores e técnicos que sobreviveram aos desatinos do Khmer Vermelho. Davy centraliza seu relato nas experiências da atriz Dy Saveth e dos diretores Ly Bun Yim, Yvon Hem e Ly You Sreang. Um cinema em ruínas, e recuperado, vira metáfora do renascimento.

Para repassar na mente o que foi o período, você só precisa se lembrar de filmes como Os Gritos do Silêncio, de Roland Joffe, sobre a experiência do jornalista Sydney Schanberg, do The New York Times. Ele denunciou para o mundo a brutalidade nos campos de concentração do ditador Pol Pot, mas enquanto recebia seu Pulitzer de reportagem, o cambojano que lhe servira de guia amargava o sofrimento no verdadeiro inferno do Khmer.

"Preparei-me para fazer o documentário e o fato de ser neto de quem sou me abriu muitas portas. Só que essas portas abertas não implicavam nenhuma garantia de engajamento para essas pessoas, cujas vidas foram destroçadas pela censura e pela repressão, e também não lhes davam nenhuma garantia de credibilidade. Eu era um estrangeiro na terra de meus ancestrais", avalia Chou.

Foi aí que ele teve a ideia de criar um evento - o Golden Reawakening. Basicamente, foi uma retrospectiva do cinema cambojano, com os filmes, muitos deles em condições precárias, que foi possível resgatar e exibir. Isso reabriu o debate sobre a identidade nacional no cinema e fez de Chou o queridinho dos 'velhos' da geração anterior. Paralelamente, os jovens foram se envolvendo e, por meio de oficinas e grupos de estudos, criaram-se as condições para uma 'retomada'.

Na sua fase de pesquisa, Davy Chou armou o que seria um roteiro detalhado paras seu documentário. O número de personagens era maior, tudo era bem escrito. A retrospectiva ocorreu no fim de 2009, as filmagens, nos primeiros meses de 2010 e, depois, ele ficou um ano trabalhando na montagem. "Se você comparar o roteiro com o filme pronto, verá que mudou bastante, mas a essência permanece a mesma." O resgate de uma cinematografia, e de um país, por seus artistas sobreviventes, aproxima O Sono de Ouro de Memórias de Xangai, de Jia Zhang-ke. Davy alegra-se de saber que o filme do autor chinês esteve em cartaz recentemente em São Paulo.

"Jia foi uma grande fonte de influência. O que ele fez de resgate da palavra em 24 City apontou um caminho para mim. Memórias de Xangai mostra que é possível reconstituir a história de um país por meio de seu cinema, dando voz aos sobreviventes que testemunham sobre suas experiências. Não estou trabalhando sobre relatos de terceiros, e isso faz toda a diferença", diz o diretor.

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