David Rosenbaum, o rapaz que envelheceu Brad Pitt

Em entrevista ao JT, ele releva os desafios do cinema daqui pra frente: 'Fazer efeitos visuais imperceptíveis'

Fernanda Brambilla, Jornal da Tarde

13 de outubro de 2009 | 10h29

A equipe de David Rosenbaum ganhou seu primeiro Oscar poucos meses atrás, pelos efeitos especiais em O Curioso Caso de Benjamin Button (2008), mas não foi essa credencial que o fez causar furor em sua primeira visita ao Brasil. Em seis anos, David passou de estagiário não remunerado a diretor de criação e hoje, aos 28 anos, é uma das lideranças de uma das mais modernas empresas de animação e efeitos visuais de Hollywood, a Digital Domain. Fundado no início dos anos 90, o estúdio conquistou o primeiro dos três Oscar de efeitos especiais com Titanic (1997). "Eu ainda estava no colegial nessa época", diz David, que se considera "um grande nerd". Convidado a palestrar no Pixel Show, evento de arte e design em São Paulo, David falou com exclusividade ao JT sobre cinema, tecnologia e, claro, Brad Pitt.

 

Estava esperando um senhor de 40 anos, 20 de carreira. Como foi que chegou até aqui?

Todos parecem surpresos com a minha idade (risos). Quando comecei a estagiar, em 2003, não ganhava nada. Eu escutava as conversas dos meus chefes ao telefone com clientes e percebi que eles cobravam novas ideias. Eu ia pra casa e trabalhava naquilo, sem falar pra ninguém. Até que achei que um desenho estava bom e fui mostrar. Eles disseram: 'Ei, você está dentro'.

 

Como foi seu primeiro filme?

Um dia meu chefe me disse: 'Ei, David Fincher (diretor de O Curioso Caso de Benjamin Button) está vindo aí’. Na hora, gelei: 'Meu Deus, David Fincher aqui?'. Fiquei revirando isso na cabeça mil vezes, pensando: ‘Preciso conhecer esse cara.' E conheci. Zodíaco (2007, de Fincher) foi o meu primeiro trabalho.

 

Depois de 'Benjamin Button', qual é o grande desafio hoje?

A coisa mais difícil foi fazer o personagem ficar velho de uma forma que parecesse real. Agora, o desafio é fazer o inverso, tornar um ator jovem, para Tron: Legacy (continuação do filme de 1982, previsto para estrear nos EUA em 2010). Jeff Bridges fará o mesmo papel em duas idades diferentes: no presente e há 27 anos.

 

Por que é mais difícil?

Bom, ninguém viu Brad Pitt velho ainda, então, quando o envelhecemos não há problema se o resultado se não se parecer exatamente com ele. Agora, para rejuvenescer um ator é preciso muito mais cuidado, já que todos se lembram das feições dele. Mas foi só por causa da tecnologia adquirida em Benjamin Button que esse filme se tornou possível.

 

Os efeitos são o grande trunfo do filme?

O mais interessante é que o roteiro estava por aí havia 15 anos. Steven Spielberg o teve nas mãos antes, assim como Martin Scorsese. Simplesmente não podia ser feito antes por causa da tecnologia. E ninguém quis se aventurar nisso até David Fincher. Fizemos um teste para Paramount e Warner Bros, e eles gastaram US$ 1 milhão nesse teste. Deu certo. Eles acharam que era a coisa mais surpreendente desde O Parque dos Dinossauros (1993).

 

Como foi ter Brad Pitt no estúdio?

David Fincher adora trabalhar com Brad, então o convidou. Quando mostramos o projeto, Brad perguntou: 'Vocês conseguem fazer isso comigo? Então ok, eu topo.' Simples assim. Ele foi ótimo, confiou totalmente em nós, teve mente aberta. Mas a partir do momento que se tem Brad Pitt, tudo fica mais difícil. Afinal, quantas pessoas você conhece no mundo que não sabem quem é Brad Pitt? (o ator foi filmado interpretando suas falas, e um processo digital transportou expressões faciais a uma animação).

 

E qual a herança do filme para a indústria?

Benjamin Button mudou a cara do cinema digital. Os atores estão confiando mais em tecnologia. Anos atrás era difícil convencer um astro a interpretar um papel olhando para uma bola de tênis pendurada por um fio, num set coberto de azul. E com a saturação de filmes como Transformers e O dia depois de amanhã, com coisas explodindo, a tecnologia está sendo usada para algo elegante, menor.

 

É a nova geração dos efeitos?

Esse é o nosso Santo Graal: fazer efeitos visuais imperceptíveis. Se fizermos bem nosso trabalho, você nunca vai saber sequer que o fizemos. E isso é ouro para nós. Afinal, num filme em que você cria uma grande explosão, ou inunda Manhattan, ninguém se pergunta se aquilo é real.

 

Há algo que não se possa fazer ainda?

Acho que tudo depende de quanto tempo e dinheiro se tem. A tecnologia está aí, então a questão é quanto dinheiro temos para descobrir como fazer. (O orçamento de Benjamin Button passou de US$ 100 milhões).

 

Então, você trabalha em uma fábrica de sonhos.

Adoro dizer que nós fazemos a mágica do cinema. Levamos um monte de atores para gritar como loucos em um fundo verde. Quando terminamos, há seis gigantes, uma floresta, e dá pra acreditar que aquilo tudo existe.

 

Deve ser frustrante ir ao cinema e pensar: 'Ah, sei como fizeram isso.' Dá para se surpreender?

Acho que 'me estraguei' quando se trata de filmes. Quando não é bom, fico analisando as cenas. Mas se o filme é bom, te leva além. Você se prende na história, não nos efeitos.

 

Você não conta isso às pessoas, certo?

Não conto nada, é tudo mágica. Digo que são pessoas apertando milhões de botões (risos). Não, só estou brincando.

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