Datena versus Record: mais um round

Intempestivo, polêmico e sempre disposto a denunciar as mazelas que afligem o cidadão brasileiro no seu dia-a-dia. Esse José Luiz Datena que o telespectador se habituou a ver na TV não é nada diferente do Datena que se revela nos bastidores assim que as luzes dos refletores dos estúdios se apagam. Uma boa briga também fora da telinha é o combustível que parece alimentar esse ex-jornalista esportivo de 43 anos e 130 quilos.A última do trator Datena: há pouco mais de 15 dias dando expediente na Rede TV!, no programa Repórter Cidadão, no ar diariamente às 18h, ele volta ao noticiário declarando que sua ex-emissora, a Record, o convidou para voltar a apresentar o programa Cidade Alerta, que ele comandou durante quatro anos e pelo qual recebia, segundo especulações, R$ 100 mil mensais. Segundo amigos de Datena, para tê-lo de volta a Record teria lhe oferecido salário mensal de R$ 500 mil (na Rede TV! o seu contracheque estaria na faixa dos R$ 350 mil)."Platão da Periferia"A direção da Record nega o convite, e isso provocou a ira do jornalista, que anda muito solícito em abrir espaço na agenda para dar entrevistas em emissoras de rádio, TV, jornais e revistas "Quero que eles jurem pela Bíblia! Estão me chamando de mentiroso e não admito!", brada o repórter-denúncia.Verdade ou não, o que será que Datena tem que os outros não têm? "Não sei", responde o próprio apresentador. "Acho que sou apenas um bom profissional que estava no lugar certo na hora certa", diz, referindo-se ao tipo de jornalismo que emplacou na Record com o Cidade Alerta, há quatro anos, e à série de outros programas de formato parecido que surgiram no rastro da atração.O estilo que faz o sucesso de Datena na televisão é uma bem dosada mistura de dramaticidade, indignação e filosofia de botequim: ele apresenta a notícia e depois a comenta, muitas vezes incluindo citações literárias em seu discurso. O faz normalmente sem apontar a fonte - o que lhe valeu até o apelido de "Platão da Periferia"."Tento reagir como o cidadão comum reagiria diante dos absurdos que acontecem no País", diz. "E cito mesmo. Outro dia, por exemplo, lembrei Nietzsche quando falava da maneira brutal com a qual os criminosos massacram suas vítimas."Um olho no telepromter, outro no IbopeNão existe apenas espontaneidade no comportamento de Datena frente às câmeras. Ele confessa que décadas apresentando notícias ao vivo, no rádio e na televisão, dotaram-lhe de uma técnica apurada para perceber o tom de voz e o grau de revolta a serem adotados.Parte dessa técnica, claro, consiste, em manter um olho no teleprompter (aparelho que permite ao apresentador ler o texto olhando para a câmera) e outro no monitor que mede o Ibope do programa. Se sua postura agrada, ele a mantém. Se não, muda de atitude. "Esse aparelhinho deixa qualquer um louco, e é o grande responsável pelo baixo nível da televisão brasileira hoje." Contradição? Para ele, nenhuma. "Pode conferir, meu programa não tem baixaria. Aliás, quando diminuímos o número de notícias policiais, a audiência subiu."Grande parte do sucesso do apresentador, no entanto, se deve à sua agilidade, a despeito de seus mais de cem quilos. "Eu aprendi no rádio a ser rápido, isso porque ele te obriga a falar construindo imagens para o público." Além de agilidade, Datena tem fôlego. Bom exemplo disso foram as 12 horas initerruptas de transmissão ao vivo, no Cidade Alerta, dos atentados aos Estado Unidos em setembro passado.Essa mesma desenvoltura é o que a RedeTV! espera dele aos domingos, quando, ao lado de Jorge Kajuru, jornalista e comentarista esportivo, vai comandar um programa de auditório, disputando a audiência com Gugu e Faustão. O programa ainda não tem nome, mas, se depender de Kajuru e Datena - que trabalharam juntos no rádio em Ribeirão Preto cobrindo esportes e têm compleição física semelhante -, vai se chamar Tela Cheia.

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