Das trilhas de televisão a um tributo sonoro à mãe natureza

O compositor Alberto Rosenblit usa a floresta como tema de Mata Atlântica

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2013 | 02h11

Alberto Rosenblit ficou conhecido como autor de trilhas sonoras de telenovelas. Entre as mais recentes estão as de Páginas da Vida e Tapas & Beijos. Foram 16 até o momento, 9 delas dirigidas por Ricardo Waddington. No entanto, aos 59 anos, o nome do maestro carioca é pouco lembrado fora do circuito televisivo. Isso deve mudar com o CD Mata Atlântica, só agora lançado, mas concebido há quatro anos. É uma requintada produção com grande orquestra e participação de músicos como Jacques Morelenbaum, Paulo Jobim, Bernardo Bessler e Paulo Sérgio Santos, reunindo composições já gravadas e outras mais recentes.

Rosenblit, modestamente, se define como um músico a serviço dos diretores da TV, mas seu disco Mata Atlântica é um trabalho autônomo, trazendo quase todas as faixas assinadas por ele (as exceções ficam por conta de Guanabara, que traz como parceiro Paulinho Tapajós, e Navegante, música de Fernando Leporace e Alexandre Lemos).

Entre as composições mais antigas estão Uma Valsa, de 1984, em que se destaca o solo de violoncelo de Jacques Morelenbaum, e Jobiniana, concebida na mesma época, que, como sugere o título, é uma homenagem ao maestro e compositor carioca Antonio Carlos Jobim (1927-1994), ídolo do músico.

Em comum com Jobim, Rosenblit tem não apenas um acento bossa-novista, mas o amor pela natureza. A exemplo do autor de Águas de Março, ele busca uma correspondência entre a escala cromática da natureza e a musical. Imagem, para ele, é invariavelmente o ponto de partida de suas composições. "Em certa medida, Mata Atlântica é um disco muito carioca, evocando a fauna e a flora da floresta." Música como mera abstração, justifica Rosenblit, "não funciona muito bem".

Assim, a profusão de instrumentos na faixa de abertura, Mata Atlântica - clarones, trompas, flautas, trompetes, trombones - justifica-se pela tentativa de traçar um caminho analógico que aproxime os sons naturais dos musicais, em busca de uma tradução sonora das imagens evocadas pela floresta com a qual convive Rosenblit diariamente - de sua janela ele vê a mata, as tocas e esconderijos dos bichos.

O produtor artístico Vittor Santos, que também participa do CD como trombonista, deu palpites na escolha do repertório. Nele se destaca a faixa Uma Valsa, resgatada da primeira gravação de Rosenblit com Mario Adnet, em 1980. Mais recentemente, o compositor lançou De Bem Com a Vida (Dabliú, 2009), que tem como convidados especiais Joyce, Ney Matogrosso, Leila Pinheiro e Ivan Lins, entre outras estrelas da MPB.

A composição para TV, como comprova seu CD Trilhas Brasileiras (2001), foi um laboratório de algumas peças instrumentais de Mata Atlântica. Para a telenovela A Favorita (2008/9), ele escreveu 30 diferentes temas a pedido do diretor Ricardo Waddington, pontuando a trama de assassinato que envolvia duas amigas de infância em permanente disputa.

"O compositor que trabalha para uma novela ou um filme tem de estar consciente de que é apenas uma ferramenta do diretor", diz Rosenblit, reiterando o ponto de vista de um dos maiores músicos de Hollywood, John Williams, outra de suas referências.

Filho de uma pianista, o maestro brasileiro começou a aprender música aos 6 anos e acabou estudando no Berklee College de Boston, onde se formou Howard Shore, compositor das trilhas dos filmes do canadense David Cronenberg. Quando todas as faculdades de música americanas tinham como foco o ensino do clássico, o Berklee College ousou, incentivando o estudo do jazz. "Sempre ouvi muito Elmer Bernstein, por exemplo." Nem precisava dizer. Isso fica claro na seção de sopros de Mata Atlântica, especialmente nas faixas de abertura e encerramento.

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