DAS TELAS PARA O PALCO

Temporada está repleta de montagens de obras influenciadas por filmes

DANIEL SCHENKER , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2013 | 02h12

O texto teatral não é obviamente o único ponto de partida possível para uma encenação. O cinema tem despontado como base frequente, a julgar por diversas montagens da temporada atual. Espetáculos que, em medidas variáveis, foram norteados por roteiros de filmes ou despontaram de textos que renderam importantes adaptações para a tela.

Centrado no vínculo passional entre Edith Edwing Bouvier Beale e sua filha, Edith Bouvier Beale, respectivamente tia e prima de Jacqueline Kennedy, Grey Gardens, texto de Doug Wright, foi baseado no documentário, realizado em 1975 pelos irmãos Albert e David Maysles. Os cineastas registraram a relação entre ambas, marcada por forte dependência emocional, confinadas na decadente e deteriorada Grey Gardens - nome da outrora suntuosa mansão localizada em East Hampton.

O diretor Wolf Maya, porém, minimiza a influência do documentário na montagem, que estreia sexta na Sala Baden Powell, no Rio. "A peça não tem o olhar histórico do documentário, que serviu mais como material de pesquisa", afirma. Idealizador do projeto, Jonas Calmon Klabin garante que não é possível fixar uma interpretação única para os acontecimentos ligados ao conturbado elo entre mãe e filha, interpretadas por Suely Franco e Soraya Ravenle. "O texto foi inspirado no documentário, em informações ligadas aos envolvidos e em fofocas. Nem tudo é fato. Não há como contar a versão verdadeira", diz Jonas, acerca da história que rendeu ainda um filme de ficção, dirigido por Michael Sucsy, em 2009, com Jessica Lange e Drew Barrymore.

Grey Gardens não é o único caso de texto escorado em filme. Edukators, história de jovens idealistas que invadem mansões para mudar os móveis de lugar como forma de protesto, foi concebido a partir da produção cinematográfica de Hans Weingartner, de 2004, referência da dramaturgia de Rafael Gomes. Entre filme e peça houve diversas mudanças. "Precisei condensar a primeira hora em 20 minutos de diálogo. A ação cinematográfica teve que ser contada em cena. Estruturei as informações sobre o passado dos personagens em monólogos. A lógica temporal no cativeiro foi refeita. E o triângulo amoroso ganhou um peso maior. Eu transformei totalmente o filme para parecer que não mudei nada com o objetivo de fazê-lo virar uma peça", explica Rafael, acerca da montagem de João Fonseca que termina temporada no Rio (no Oi Futuro/Flamengo) e segue para São Paulo (onde estreia, no dia 12 de abril, no Sesc Belenzinho).

Neil Simon. O cinema também influenciou A Entrevista, peça de Theodor Holman sobre o envolvimento entre uma atriz de novelas e um conceituado jornalista. "Theo Van Gogh filmou essa história e depois foi chamado para dirigir uma versão americana. No meio das filmagens, porém, ele foi assassinado e Steve Buscemi, que estava no elenco, assumiu a condução", explica Euclydes Marinho, responsável pela adaptação do texto, revelando influência dessa segunda versão. O desafio principal não foi lidar com as diferenças entre a gramática cinematográfica e a teatral. "O filme já é teatral. A ação se passa num cenário único, um loft em Nova York. A estrutura é baseada no diálogo. O que fiz foi inserir o meu universo. Tornei mais picante a relação homem/mulher", diz Marinho, acerca da montagem dirigida por Susana Garcia (com direção geral de Daniel Filho), que estreia na sexta, no Teatro das Artes, no Rio.

Ainda no terreno da comédia romântica, A Garota do Adeus é versão teatral do roteiro de Neil Simon filmado por Herbert Ross em 1977. A história de amor entre uma mulher temperamental e um ator em busca de oportunidades foi consagrada no Oscar e rendeu musicais em Nova York e Londres. Em 2004, Simon reescreveu o roteiro para um novo filme, dirigido por Richard Benjamin. "Em A Garota do Adeus, o coração da trama se passa dentro de um apartamento. As cenas paralelas são transpostas para esse espaço sem que se perca o fio condutor da história", ressalta o ator Edson Fieschi, que adaptou o texto e integra o elenco da montagem de Elias Andreato, em cartaz no Teatro Fashion Mall, no Rio.

Outras encenações não partiram de filmes, mas de textos que geraram transposições marcantes para o cinema. Com estreia marcada para 4 de abril, no Teatro Jaraguá, em São Paulo, Em Nome do Jogo, montagem de Gustavo Paso para a peça de Anthony Shaffer que aborda o intrincado embate entre um escritor de romances policiais e o amante de sua mulher, suscitou duas adaptações para as telas: Jogo Mortal (1972), de Joseph L. Mankiewicz, e Um Jogo de Vida ou Morte (2007), de Kenneth Branagh. O Médico e o Monstro, versão de George Osterman para o livro de Robert Louis Stevenson, foi contaminada por outras interferências na montagem de César Augusto, em cartaz a partir de sexta no Teatro Ipanema, no Rio. No campo infanto-juvenil, Shrek, apesar de ter sua origem num conto de William Steig, costuma ser lembrado pelas animações de sucesso. Diretor do espetáculo, Diego Ramiro recebeu da DreamWorks a recomendação de se aproximar da primeira versão cinematográfica, mas usufruiu de liberdade na concepção de sua montagem, que, em cartaz no Teatro João Caetano, no Rio, deverá chegar a São Paulo em agosto.

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