'Das propriedades de ser Coco'

Morreu José Saramago. Prêmio Nobel da literatura, autor de personagens inesquecíveis, todos eles representados, no meu entender, na pele de Blimunda: aquela que precisava comer o pão para não enxergar o que seus olhos podiam (e deviam) ver. Realidade e imaginação sempre estiveram em contato na obra desse autor, assim como o universo do sonho e da política cotidiana. Dono de posições políticas das mais polêmicas, comunista de formação e de convicção, defendia causas com a alma e o coração, a despeito de muitas vezes gerar dissenso e causar polêmica. Talvez por isso tenha se convertido em voz pública, sendo chamado a opinar nos momentos mais inesperados. Era nessas horas que o literato se fazia político, e largava um pouco da imaginação para se dedicar à realidade; ou melhor, atravessava essa ponte de duas mãos que opõe e une ficção e não ficção.

Lilia Moritz Schwarcz, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2010 | 00h00

Todos sabemos que figuras públicas não estão isentas de seu lado privado. E nesse, José reinava discreto, num mundo feito de pequenas e grandes realidades: Pilar - sua grande companheira -, seus cachorros, seus amigos, seu jardim, sua casa, sua biblioteca. Também não descurava do humor, das paixões e, igualmente, de suas aversões tão particulares como prediletas. E dentre elas estava o coco. José tinha verdadeira ojeriza a esse inocente alimento, e era capaz de dizer os piores impropérios diante dele.

O pior é que, quando no Brasil, jamais escapava desse produto e de seus derivados: uma água de coco, um quindim, uma cocada, um camarão com leite de coco, uma boa moqueca com coco e por aí vai. Educado, tentava driblar a descortesia, diante dessa iguaria tropical, e se escudava, sempre que podia, com uma boa desculpa. Estava sem fome, tinha perdido repentinamente o apetite, encontrava-se inapetente, o calor lhe fechara o estômago, ou padecia com uma indisposição repentina. Às vezes a desculpa dava certo; às vezes, tudo resultava em mais insistência e novo desfile de argumentos.

A situação era tão recorrente, que gerou uma espécie de "tese", devidamente compartilhada (por aqueles que desfrutavam sua companhia no Brasil), mas jamais publicada. Inédita, por definição e vocação, a "dissertação" já alcançara "algumas verdades científicas", que considerávamos irrefutáveis. O coco seria redondo como a vida, mas peludo como as agruras do destino ou a pele dos homens. Ele era duro por fora, porém suave por dentro. E ainda: seco na sua extremidade e molhado em seu interior. Para terminar, apresentava uma casca escura e de tom marrom, mas conservava uma pele interna alva como a neve. O fato é que tal objeto, enfadonhamente redondo, possibilitava prever uma certa "dialética", amplamente testada e ampliada a cada nova passagem de José por aqui. Melhor ainda, tudo acabava em gargalhada, já que não havia ocasião em que um chef não se acercasse de nós com a boa nova: "Saramago, te preparei um prato feito à base de coco!" E, diante do inevitável, concluíamos que o coco era como a vida: funcionava na base do ora sim, ora não; do dia que carrega a noite e vice-versa.

A vida foi longa, mas interrompeu muitas das teses do José. Essa era apenas uma delas: quem sabe a mais divertida e inconsequente. Ou talvez não; afinal, uma boa piada só faz sentido quando revela um universo de alusões partilhadas. Quem sabe, por meio dessa "filosofia do coco" seja possível recuperar um certo viés de Saramago; aquele que fez dele um grande polemista, no melhor sentido que o termo pode merecer. Por meio dos cocos, no entanto, ele também exercitava - hoje vejo bem - seus dotes de escritor; daquele que testa a todo momento os limites e a lógica da linguagem. Talvez tenha sido por meio desse movimento pendular, aparentemente sem sentido, que em A Jangada de Pedra, Portugal se descolou do continente e saiu sem rumo, navegando à deriva. Não será esse, também, o jogo de inversões que ocorre em Todos os Nomes, quando num cemitério o alcoviteiro troca inadvertidamente os títulos das lápides? Também me parece semelhante a dualidade praticada em Ensaio Sobre a Cegueira, quando, invertendo nossa lógica cartesiana, somos tomados por repentina e passageira impossibilidade de fazer aquilo que realizamos por ordem da natureza: enxergar.

Dizem que não há como saber quando a vida provoca a imaginação e vice-versa. Por certo, não pretendo fazer da "dialética do coco" um exercício de predestinação. Mas o fato é que a brincadeira tola pode iluminar um pouco do processo criativo de José Saramago feito de inversões, ambivalências e dualidades, que nascem para ficar sem reposta e solução. Ou, então, nada disso: o jogo era apenas um jogo. Muito mais que um jogo.

LILIA MORITZ SCHWARCZ É PROFESSORA DE

ANTROPOLOGIA DA USP E AUTORA DE A LONGA VIAGEM DA BIBLIOTECA DOS REIS

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