Darwin e a reconciliação do homem com a natureza

Ao longo da história, poucos homens tiveram a oportunidade de influir tão decisivamente sobre o rumos do pensamento humano quanto o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882). Representado, certa vez, como "o sol do século 19" (em função da luz que ele teria espalhado sobre o negro horizonte das superstições religiosas), Darwin foi tão célebre pelo que disse quanto por aquilo que lhe é atribuído. Imerso nas questões de seu tempo e sempre cauteloso na exposição de suas idéias, esse obstinado "homem de ciência" (como ele próprio fazia questão de ser chamado) passou a maior parte da vida procurando decifrar um dos maiores enigmas da natureza: a origem das espécies.Acusado, por muitos, de ser o responsável pela "bestialização" da humanidade, por causa da sua teoria da evolução, Darwin não foi, no entanto, o primeiro a sugerir a continuidade entre símios e homens. Na verdade, quando ele publicou a sua obra-prima A Origem das Espécies, em 1859, o tema de nossa origem animal já era motivo de disputas calorosas nos meios científicos. Sem dúvida, essa obra (resultado de mais de 20 anos de incansáveis pesquisas e profundas análises) foi fundamental para fazer triunfar a idéia de que os homens não são seres à parte da natureza, ou seja, não possuem qualquer prerrogativa sobre os outros animais, a não ser o fato de serem mais evoluídos. Em suma, não se trata de uma diferença de natureza, mas de grau de complexidade.Devemos considerar, sem nenhum risco de erro, que a publicação da Origem das Espécies foi um grande marco na ciência, ainda que a teoria da evolução tenha tido representantes anteriores (o francês Lamarck, por exemplo, já havia décadas antes defendido a idéia de evolução como resultado de uma "tendência espontânea" da matéria para atingir graus de perfeição sempre crescentes). Em Darwin, no entanto, evolução significa mutação, variação contínua, em poucas palavras, o que ele chama de evolução nada mais é do que uma lenta e gradual modificação das espécies. Aparentemente inocente, essa afirmação desfere um golpe profundo na crença de que o homem tem um lugar privilegiado na criação.Para avaliarmos o enorme impacto que essas idéias tiveram sobre os meios científicos e sobre a opinião pública em geral, nada melhor do que a leitura de Darwin - A Vida de um Evolucionista Atormentado (tradução de Cynthia Azevedo, Geração Editorial, 796 páginas, R$ 45,00), de Adrian Desmond e James Moore. Certamente, a mais bem documentada e minuciosa reconstituição da vida e do pensamento de Darwin, essa obra é também um riquíssimo panorama do universo social e intelectual do século 19, podendo ser, com justiça, considerada a biografia "definitiva" do naturalista inglês.Pesquisador honorário do Departamento de Biologia do University College de Londres, Adrian Desmond é doutor em Paleontologia e História da Ciência, tendo sido premiado por seu livro sobre a geração que antecedeu Darwin. James Moore, que dedicou 20 anos ao estudo da vida de Darwin, é graduado em ciência, teologia e história, especializando-se nas controvérsias suscitadas pelo evolucionismo nos meios protestantes. Apesar da enorme erudição de seus autores, essa biografia consegue envolver o leitor com seu estilo leve e agradável. Com quase 800 páginas (enriquecidas com 91 ilustrações), trata-se de uma obra surpreendentemente acessível, mesmo para o leitor não especializado.Sem dúvida, esse livro é uma excelente oportunidade para conhecermos minuciosamente a vida de um homem cuja força das idéias se contrapõe a uma existência até certo ponto convencional. Digamos que, apesar da obra de Darwin representar uma enorme ruptura com a religião e a moral vigentes, o seu autor não tinha exatamente o perfil de um revolucionário. Em geral, sempre dedicado aos estudos e às pesquisas de campo, Darwin detestava confrontos diretos e também não costumava assumir posições políticas, preferindo manter uma vida discreta e distante das discussões passionais. Prudente ao extremo e sempre preocupado com o bem-estar da família, procurou não afrontar diretamente a religião, tentando muitas vezes conciliar (até onde era possível) a idéia do evolucionismo com a da criação divina.As discussões passionais às quais nos referimos são aquelas que se estabeleceraam entre os que defendiam (antes mesmo de Darwin expor publicamente as suas idéias) uma continuidade entre macacos e homens e aqueles que acreditavam que esta teoria era subversiva e anticristã. Os dois nomes mais importantes nessa discussão foram o conservador Richard Owen (anatomista inglês, especialista em macacos) e o aguerrido T.H. Huxley (médico e estudioso de zoologia). Na realidade, a idéia de que os homens descendem dos macacos aparece, de modo explícito, na obra de Huxley (que posteriormente se tornaria um dos mais fervorosos darwinistas). De qualquer modo, a idéia de uma ancestralidade animal do homem só conseguiu realmente se impor com a teoria evolucionista de Darwin.Como todo "unitarista de inclinação materialista", isto é, como alguém que tendia a procurar uma única natureza material para todas as coisas, Darwin não aceitava a idéia de outros mundos e muito menos a de que "os gêneros são produtos do pensamento de Deus manifestados em formas vivas". Para ele, o grande jogo da vida se desenrola na própria natureza e as espécies nada mais fazem do que evoluir umas das outras. É claro que dizer que as espécies evoluem sem a necessidade de um agente externo é o mesmo que negar o "ato único" da criação onde, de uma só vez, Deus teria criado todas as espécies existentes. E era mesmo difícil convencer os religiosos de que isso não era ateísmo. Afinal, mesmo quando Darwin tentou remediar o problema, afirmando que Deus criou as primeiras formas de vida - de onde todas as demais teriam evoluído - ficava ainda assim implícito que nós, humanos, em última instância descendíamos de seres primitivos e ignóbeis. "É como confessar um crime" - essas são as palavras de Darwin ao se referir à sua teoria. Talvez por isso Darwin tenha sido sempre tão cuidadoso em suas ações, sobretudo quando percebeu que suas idéias interessavam tanto aos socialistas (que viam nelas uma forma de legitimar o conceito de evolução histórica de Marx e Engels) quanto aos burgueses (que se sentiam atraídos pelas idéias de sobrevivência do mais forte e de seleção natural). Mantendo-se alheio a toda essa agitação e sem muito se importar com a "perda da dignidade humana" (já que o homem deixava de ter uma origem divina e superior), Darwin tinha como único objetivo desvendar os segredos da natureza. Se isso era motivo de ofensa para muitos, para ele se tratava apenas de uma busca: a busca pelo elo perdido entre homens e animais, a busca pela verdade. Afinal, muitas verdades podem ser construídas no interior da cultura e do conhecimento, mas apenas a natureza - representada por cada ser vivo - é capaz de revelar a verdade última da existência.

Agencia Estado,

13 de janeiro de 2001 | 23h42

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