Danuza Leão conta sua vida em "Quase Tudo"

O livro de memórias de Danuza Leão, Quase Tudo (Companhia das Letras, 224 págs., R$ 38), tem mais de 200 fotografias. São fotos de álbuns de família, dos tempos em que ela era modelo em Paris e Nova York, e da autora posando ao lado de figuras públicas como Juscelino Kubitschek, Mao Tsé-tung, o ator Rock Hudson e o cineasta Roberto Rossellini. Como o livro transita entre a autobiografia íntima, a profissional e a pública, as duas centenas de fotografias têm cabimento. Ainda mais porque as feições angulosas de Danuza, seu porte esguio e o seu riso discretamente escancarado - se é que isso é possível - provam que existe, mesmo, a chamada elegância natural.São fotos, ainda assim, enganosas. Elas podem levar a crer que Quase Tudo está repleto de loas nostálgicas às tardes fagueiras, à sombra das bananeiras, que os anos não trazem mais. Pois o livro não tem uma gota de saudade. A profusão de imagens pode sugerir algo pior: a ostentação vulgar de uma celebridade narcísica, em busca de escândalo fácil. Pois Quase Tudo não tem fofocas escabrosas nem tititis apimentados. O "quase´ do título é índice de realismo e contenção: contar ´tudo´, além de impossível, é de mau gosto.O que vale é o escrito. E o que está escrito em Quase Tudo são várias histórias. Há a visão de dentro do poder político brasileiro dos anos 50 e 60, pois Danuza foi casada com um potentado do getulismo, o jornalista Samuel Wainer, dono da Última Hora. Há o registro da grã-finagem e da boemia carioca de metade do século passado, já que ela foi socialite, escreveu sobre colunáveis ao se tornar jornalista, e freqüentou rodas intelectuais e artísticas, a ponto de ter sido atriz em Terra em Transe, de Glauber Rocha. Há o relato da libertação feminina, que no seu caso ocorreu de maneira suave no plano dos costumes, e com muito empenho no plano profissional. Há a descrição pormenorizada de dois casos lancinantes de amor, ciúme e morte, com Wainer e com o cronista e compositor Antonio Maria. Há os dramas, concentrados na mesma época, do suicídio do pai e da morte da irmã, a cantora Nara Leão, de um tumor cerebral. E há uma tragédia indizível, não-analisável - a morte de um filho num acidente - que ela conta com sobriedade e pungência, sem esconder que se tornou alcoólatra. Tudo isso está escrito com acerto na cadência (que combina narrativa factual com observações incisivas), no tom (o texto é frívolo, engraçado ou cortante nas partes necessárias, e meditativo quando os acontecimentos pedem uma parada para pensar) e no estilo (que expande e enriquece a voz que Danuza desenvolveu previamente em suas reportagens, artigos e livros de etiqueta). Cadência, tom e estilo - os três elementos fazem com que o andamento do livro seja acelerado e imprevisível. Quase Tudo tem um pique vertiginoso. Parece um passeio a cem por hora em estrada estreita e tortuosa. Não se sabe o que virá no próximo parágrafo, se precipício, carneirinhos pastando em paz ou caminhão na contra-mão. A aceleração e a imprevisibilidade têm pontos de contato, mas não pertencem à dicção do jornalismo de hoje, no qual a tendência dominante é o rapidinho superficial. Elas decorrem do princípio organizatório do livro. Princípio literário que, com algum pedantismo, se poderia batizar de "indeterminação permanente", e está presente na existência concreta da narradora, na sintaxe e no desfecho de Quase Tudo. Ao longo da vida, na maior parte do tempo Danuza Leão não soube o que faria logo em seguida, de onde tiraria o seu sustento. Teve de fazer escolhas difíceis e, no limite, precisou se reinventar quando se enfiou em túneis sem saída. A indeterminação decorre de sua inserção insegura na sociedade: a bela moça de classe média, mas sem estudos, se apega às relações afetivas ou mundanas, e nelas encontra refúgio. Mas as relações se rompem e a moça, quebrando a cara, vai conquistando a sua autonomia. Cada passo adiante, e cada tombo amoroso e profissional, confere um sentido diferente ao percurso percorrido. Nas frases de Quase Tudo ocorre um processo semelhante. O comentário ferino, ou bem-humorado, ou machucado, ou incongruente, surge só no fim do raciocínio, depois de um agudo ziguezague de vírgulas e pontos-e-vírgulas, de interpolações e parênteses. O arremate ilumina com nova luz o que a frase disse antes. As suas frases são túneis. Só se percebe a escuridão quando se chega ao fim deles, quando a treva some e a claridade surge subitamente, para cegar. (A imagem do túnel, aliás, aparece em dois momentos cruciais: quando Samuel Wainer volta do exílio e atravessa o túnel Rebouças pela primeira vez; e quando Danuza lembra que seu filho Samuca explicou que, ao contrário do que ocorre com o rádio, com um toca-fitas é possível escutar música no carro dentro do túnel).Frases, por exemplo, como a sobre os ciúmes de Antonio Maria: "Aí houve uma discussão séria, e nós, que não brigávamos nunca, brigamos feio; em voz baixa e sem ofensas, o que é pior." Ou sobre o ciúme que ela tinha de Samuel Wainer, mesmo depois de separados: "Minha teoria era simples: ninguém podia maltratar Samuel, fazê-lo sofrer (só eu), pois ia se dar mal comigo." Ou sobre os inícios da sua vida profissional: "Como eu não sabia fazer nada, fazia tudo que aparecesse." Ou sobre o fechamento de sua butique: "Até hoje a visão de uma nota fiscal me dá alergia, sou uma nulidade para decifrar um formulário do ISS, e jurei - jurei mesmo - que nunca mais na vida teria um negócio próprio." Ou, num resumo de tudo: "Fui indo, aos trancos e barrancos, mas indo e aprendendo." Capitu não diria melhor. Com a diferença que, ao contrário de Capitu, Danuza não só se libertou como é a narradora de sua história. E conduz a narrativa a um desfecho que é um grande achado literário e existencial. Não se pode contá-lo sob pena de romper o seu encanto. Mas vale adiantar que é só na última linha que Quase Tudo se revela: é o presente que esclarece o passado, e não o contrário; é a capacidade de amar, de desejar, de se reinventar, que confere um pouco de sentido e prazer à vida. Quase Tudo amarra presente e passado, forma e conteúdo, memória e escritura. Ele os torna indissociáveis, o que é sinal da existência não de uma diletante, e sim de uma escritora com um projeto e meios de concretizá-lo. Só uma escritora relataria assim, puxando para o presente, para o aqui e agora, o instante em que recebeu a notícia da morte do filho, Samuca: "Naquele momento pensei que nunca passaria por sofrimento maior, mas passei, e quantas vezes, e durante quantos anos - como agora."

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