Dante, Melville e um passeio pelo inferno

Questão é o que significam todas essas referências eruditas

O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2012 | 00h00

Em entrevista realizada no Festival do Rio, Leos Carax admitiu que o roteiro de Holy Motors já era estranho, mas também disse que o filme ficou muito mais bizarro depois de pronto. Holy Motors é difícil de catalogar - comédia, drama, filme de esquetes? Denis Lavant, o ator fetiche do diretor, descarta a fragmentação dos esquetes. Em Cannes, ele lembrou que a origem remota de Holy Motors está no roteiro de um curta que Carax escreveu há muitos anos para homenagear Akira Kurosawa. O curta nunca foi feito. Tinha muitos personagens e um deles era o Merda de Tóquio, último filme de Carax anterior a Holy Motors.

O que significam essas histórias de M. Oscar, o homem que sai de casa numa limusine e se metamorfoseia em diversas máscaras ao longo do relato? Ele é, ao mesmo tempo, capitão de indústria, velha mendiga, sem-teto, monstro, assassino, acrobata. Denis Lavant fornece sua interpretação - o filme mergulha na precariedade da condição humana. Se há uma personagem, é a limusine que circula por Paris, conduzida pela motorista loira, Céline. Por isso mesmo, o filme termina daquele jeito desconcertante, meio fábula. O homem é frágil, só a máquina é potente no mundo atual, mas até ela tem seus momentos de dúvida.

Ator e diretor, Leos Carax provocou impacto com seu longa de estreia, Boy Meets Girl, de 1984. O próprio pseudônimo é um anagrama de seu nome de verdade, Alex Oscar Dupont. Vieram depois Sangue Ruim/Mauvais Sang e Os Amantes de Pont Neuf. Em todos, o personagem de Lavant chama-se Alex, a mulher é Juliette Binoche, uma misteriosa encarnação da beleza. O nome pode ser sempre o mesmo, mas Alex muda de filme para filme. Pont Neuf provocou escândalo em 1991. Carax fez construir o maior décor do cinema francês - maior que o boulevard do crime, na obra famosa de Marcel Carné, no começo dos anos 1940. A Pont Neuf, o Sena e seus entornos, foram todos meticulosamente recriados para sediar a história de amor de um casal de sem-teto.

O Alex de Pont Neuf fornece uma imagem física deplorável. Antecipa o Merde que sai do esgoto em Tóquio, de 2008. Entre ambos, Carax fez Pola X, com Guillaume Depardieu, em 1999 - seu filme de sexo explícito, livremente adaptado de Herman Melville (Pedro; ou As Ambiguidades), impôs o talento do filho de Gérard e o garoto morreu precocemente, em 2008. Merda está de volta em Holy Motors, um pouco mais velho. Sequestra a estrela - Eva Mendes - e a leva para o esgoto, que é seu habitat. Bem antes disso, Holy Motors abre-se com M. Oscar que desperta de seu sono, num quarto cujo papel de parede dá a impressão de que ele está numa floresta.

É uma referência às primeiras linhas do Inferno Dante, quando o poeta perde o rumo e vai parar no bosque. O filme é todo ele uma andança pelo inferno da modernidade? No cinema, o público sentado nas poltronas está, aparentemente, morto. Tudo é cifrado em Holy Motors e pode conter múltiplos significados. No Rio, o autor admitiu que carregou a obra de referências, mas não as mais óbvias - o alto da loja Samaritaine, em que Kylie Minogue substitui Juliette Binoche, não é bem a volta aos seus primeiros filmes. As referências estão lá, mas só vão fazer sentido se o espectador tiver repertório para decifrar o que o diretor está querendo dizer.

E o que é isso? Sei lá, disse Carax no Rio. Cabe a você, ao público, reformular o filme que quiser, no próprio imaginário. Quando o chefe de família está saindo de casa, a filha grita para ele - "Travaille bien", trabalha bem. Não deixa de ser uma variação do "Beau Travail" do filme que Claire Denis adaptou de Melville, transpondo a história de Billy Budd para a Legião Estrangeira (e no qual Denis Lavant fazia Claggart). Tudo isso pode significar muito, ou nada. Pode irritar ou provocar admiração. A própria Edith Scob, que faz a motorista, Céline, é parte das memórias do cinéfilo como a filha mascarada do cientista louco de Les Yeux sans Visage, de Georges Franju, de 1960.

O resultado, reconhece Carax, é bizarro, mas dessas histórias (ou atmosferas) de decadência e morte, encenadas num cinema, no alto de um prédio ou num cemitério, o sentimento é sempre de precariedade. Carax filma um mundo em desordem e desamparado, no limite do sonho e do pesadelo. O curioso é como a sua limusine dialoga com a de David Cronenberg em Cosmópolis, outra (re)visão do fim do mundo. Tudo está no seu olhar. Sem a lucidez do público, Holy Motors arrisca-se a ser só uma extravagância.

Crítica: Luiz Carlos Merten

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