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Dante e suas divinas comédias

Sete séculos após sua criação, clássico do poeta ganha duas versões distintas em graphic novels

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2011 | 00h00

Sandro Botticelli esboçou em pergaminho o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. Séculos depois, foi a vez de William Blake e Gustave Doré. Nas leituras de Robert Schumann e Gioacchino Rossini, os cenário dantescos viraram música, e a tecnologia tratou de transformar tudo em videogame - isso só para ficar em alguns exemplos. Sete séculos depois de sua criação, A Divina Comédia, de Dante Alighieri (1265-1321), segue "um monumento à inspiração", como afirma ao Estado o designer americano Seymour Chwast. A mais recente prova disso são as duas graphic novels que chegam agora às livrarias brasileiras, tão diferentes entre si como podem ser as mais radicais variações do mesmo tema.

Uma é assinada pelo próprio Chwast, celebrado designer de produtos e peças publicitárias, que estreia no formato HQ com a edição que acaba de sair pelo selo Quadrinhos na Cia. A outra versão é brasileira, feita a partir de traduções de Jorge Wanderley (1938-1999), Henriqueta Lisboa (1901-1935) e Haroldo de Campos (1929-2003), num roteiro elaborado pelo quadrinista italiano radicado no Brasil Piero Bagnariol e por seu pai, Giuseppe, e que chega às livrarias nos próximos dias pela Peirópolis.

Como não se sabe a data exata em que Dante escreveu o livro - as três partes foram criadas entre 1304 e 1321 -, não há, portanto, uma efeméride que explique as duas investidas simultâneas. "Foi coincidência. Soube da versão americana quando a minha já estava bem avançada", diz Piero.

Participante ativo da política de sua Florença natal, onde ocupou cargos públicos, Dante escreveu sua obra-prima enquanto vagava pela Itália, em exílio, após ser acusado de corrupção. Nos 14.233 versos dos 100 cantos de sua A Divina Comédia, o turbulento cenário que testemunhava aparece com frequência, na forma de críticas ao envolvimento do papa na política e aos escândalos que se seguiram. A obra é uma leitura do tempo em que vivia, e as duas adaptações em HQ buscaram ressaltar esse aspecto.

A Divina Comédia de Seymour Chwast tem um quê do Poema em Quadrinhos de Dino Buzzati (artista italiano que Chwast diz desconhecer), uma saga de eras passadas reconstruída com olhar pop. No traço do americano, todo em preto e branco, Dante aparece como um detetive de histórias noir dos anos 30, de chapéu, capa e cachimbo, sendo conduzido profundezas adentro por um Virgílio de chapéu coco, gravata-borboleta e bengala.

A entrada para o Inferno é sinalizada com um letreiro cintilante, que lembra um bordel ou cassino, e dali por diante Dante e Virgílio seguem por escadas e corredores, como num prédio antigo. Da mesma forma, as disputas florentinas por poder sugerem duelos da máfia. "É o estilo que combina com o espírito da minha arte. E desenhar togas não me interessava", diz o designer, sobre a releitura.

Referências dos séculos 20 e 21 são menos claras na versão cheia de cores imaginada por Bagnariol, mas aparecem. Como na obra de Dante, que permite vários níveis de leitura, o quadrinista incluiu "símbolos e gestos não visíveis a um olhar superficial". Na passagem do Inferno com o rio onde estão condenados a ficar tiranos, Hitler e Stalin podem ser vistos mergulhados na água, em segundo plano.

Piero e seu pai também precisaram criar um enredo paralelo, colocando a história de Dante como pano de fundo. Foi uma alternativa encontrada para suprir "buracos" nas traduções escolhidas - Henriqueta Lisboa realizou a tradução de metade dos 33 cantos do Purgatório, enquanto Haroldo de Campos o fez em apenas seis dos 33 cantos do Paraíso.

Essa opção garantiu certa graça à narrativa, uma adaptação bem mais densa e fiel ao original que a de Chwast. A certa altura, por exemplo, um dos interlocutores de Dante suspira, com a cabeça apoiada sobre as mãos, ao ouvir sobre mais um desfalecimento do autor durante o percurso: "Será que ele vai continuar a desmaiar assim o tempo todo?".

Com inspirações declaradas em histórias como Little Nemo, de Windsor McCay, e Krazy Kat, de George Herriman, Seymour Chwast não se incomoda com críticas quanto ao esvaziamento do conteúdo da obra, que em seu traço foi resumido dos três livros originais a apenas 127 páginas: "Por sorte, uma imagem vale por mil palavras", conclui.

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