Dantas. O olhar preciso

Escritor sergipano, um dos destaques da próxima edição da Flip, Francisco Dantas revela como a escrita é uma forma de crítica terapêutica

UBIRATAN BRASIL, ENVIADO ESPECIAL, ITABAIANINHA, SERGIPE, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2012 | 03h10

O tempo parece voltar aos anos 1950 quando o som do saxofonista Gerry Mulligan se espalha à noite pelos campos de grama castigada pela seca. Acomodado no alpendre da bela casa de sua fazenda Lajes Velha, em Itabaianinha, no interior do Sergipe, o escritor Francisco J. C. Dantas encontra no jazz o conforto para criar uma das prosas mais originais da atual literatura brasileira. Na verdade, trata-se da combinação ideal entre música e ambiente - aos 71 anos, ele sabe que a experiência, essa negociação consciente entre o eu e o mundo, é uma característica irredutível da vida, e não há experiência mais intensa do que a arte.

E Dantas vive um momento singular: acaba de lançar um novo romance, Caderno de Ruminações (Alfaguara), e se prepara para ser uma das estrelas da próxima Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, em julho. Motivos de sobra para qualquer um festejar. Menos para Dantas. Desconfortável na sua pele, tranquilo em sua mente, ele cultiva o silêncio e a introspecção como caminho único para a escrita. "Não sei escrever samba em uma caixa de fósforo", ironiza. "O que faço exige muita preparação. Vivo a expectativa do que vai acontecer."

Tal celebração só acontece em seus domínios, na fazenda onde cria gado e cultiva algumas plantações. Ali funcionou um engenho de açúcar, controlado pelo avô. Hoje, restaram apenas um pequeno lago, chamado de tanque, e a enorme casa, de sapé, que Dantas calcula ter 180 anos. A principal criação, no entanto, a da verdadeira sobrevivência, acontece em seu escritório, onde se instala diante do computador e, cercado pelo passado, como fotos dos ancestrais, lampiões e cuias, produz uma escrita vigorosa.

Para Dantas, mais que uma arte, a literatura é uma energia, ferramenta para mudar o mundo. Quando seu primeiro romance, Coivara da Memória, foi publicado, em 1991, os críticos não acreditaram no que viam: daquele pequeno Sergipe sufocado saía uma voz bela e devastadora. "Estreei tarde, aos 50 anos, quando passei a utilizar as letras como forma de protesto."

De fato, é possível costurar sua obra a partir de assuntos que o afligem. Em Coivara, ao contar a vida de um escrivão acusado de assassinato, revela as mazelas da Justiça; Os Desvalidos (1997), no qual descreve o universo dos jagunços e cangaceiros, traz um retrato do desamparo; Sob o Peso das Sombras (2004), que apresenta um burocrata provinciano fracassado, ironiza os acadêmicos; e o recente Caderno de Ruminações, seu primeiro romance ambientado na metrópole, critica os profissionais da saúde ao acompanhar o triste destino de um médico decadente.

"Escrever me pacifica", justifica Dantas, homem que exibe uma espécie de graça natural, uma elegância simples, uma presença anônima. Quase magro, quase alto, move-se lentamente. Sua voz é, ao mesmo tempo, ligeiramente rouca e muito tranquilizadora. Seus olhos enganam com um ar sonolento, pois, depois de conquistada a intimidade, fixam-se no interlocutor de tal maneira que é impossível olhar para outro lugar enquanto fala.

"No primeiro contato, Francisco não gosta muito de olhar diretamente para as pessoas quando conversa", constata a poeta Maria Lúcia Dal Farra, mulher do escritor e que vive com ele na fazenda desde 1986. "Mas a afeição logo surge."

A sensação é a mesma quando se tem contato com seus textos. Conciso e econômico, como se escrevesse em tábuas estreitas (referência a um de seus ídolos, Graciliano Ramos), Francisco Dantas exibe um cuidado com as palavras cujo objetivo exclusivo é o de alcançar uma forma que se harmonize com seus temas.

"Os livros têm papel terapêutico para mim", confidencia ele, cujas obsessões só sossegam quando coloca o ponto final em uma obra. Nesse momento, relaxa o espírito antes combalido ao som de jazz, cuja melodia ecoa nas montanhas que cercam sua Lajes Velha.

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