Danilo Guilherme e o balanço maduro de 'Preto Colorido'

O cantor cearense lança, aos 46, um disco de estreia digno de uma jovem revelação da MPB

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2013 | 02h16

De bate-pronto, uma visita à casa onde ensaia a banda Danchá, na Lapa paulistana, engana o repórter. Cadê Danilo Guilherme, revelação cearense por trás do belo disco Preto Colorido, lançado em São Paulo nesta semana? Agasalhado, de guitarra em mãos, o cantor de 46 anos está sentado próximo à porta, pensativo, enquanto os parceiros conectam cabos e testam microfones. Poderia ser o roadie, ou o amigo fã que arranha acordes, mas é o dono da bola no ensaio para o show de hoje com o Danchá (Danilo Guilherme e o grupo instrumental Chacomdéga) na Praça Victor Civita. Conversa vai e vem com os músicos - cearenses que montaram acampamento na casa do conterrâneo Eric Barbosa, este do grupo Fóssil - e o cantor começa a relatar, aos poucos, tímido como sua voz no suingado e espertamente produzido disco de estreia, que está lançando um álbum gravado em 2005 apenas agora.

"A voz ainda não estava boa", conta Danilo, que produziu e registrou Preto Colorido há oito anos, quando Régis Damasceno e Dustan Galas, do Cidadão Instigado, estavam prestes a se mudar para São Paulo com Fernando Catatau. Deixaram, junto a músicos da cena de Fortaleza que tocaram de graça, um belo apanhado de baião, samba rock, bossa e jazz, tocados com categoria e prontos para Danilo marcar o gol.

"Ouvi uma das três faixas que tinha gravado e disse: 'não vou aguentar. Quem é que vai ouvir isto aqui?'", declarou, e depois de seis anos, em 2011, decidiu que estava pronto. Nunca saberemos se o Danilo Guilherme de 2005 já era bom cantor ou foi excessivamente crítico, mas sua voz em Preto Colorido certamente encontrou um equilíbrio distinto e maduro com os instrumentos. Canta suave e sedutora como um forrozeiro a sussurrar no ouvido de sua donzela durante o xote. Deixa espaços. Não briga com os instrumentos.

Serenidade. Durante o disco, transparece a vivência de anos na noite de Fortaleza, passados tocando clássicos da MPB em botecos locais, e flertando com um trabalho próprio após o expediente. A pressa, ou o "por que só agora?" que sua história instiga causam drama apenas em que a escuta. O olhar compenetrado não sugere a angústia daqueles que poderiam ter sido famosos, apenas uma certa serenidade diante do ritmo de sua vida. O quarentão Danilo, na verdade, poderia ter 30 e poucos, não fossem os cabelos grisalhos. E como lhe cai bem, toca com a moçada do Chacomdéga nos shows de lançamento do disco.

O grupo tem Milton Ferreira no baixo. Bruno Rafael na guitarra e Pepêu na bateria. Juntos, fazem uma leitura cool e atualizada de ritmos padrões do repertório brasileiro, recontextualizando até o violão à Lenine de Danilo (ouça a ótima faixa Mil Setas, que abre o disco disponível no Soundcloud do Chacomdéga - www.soundcloud.com/chacomdega).

Durante o show amanhã, dividem o palco com o grupo de rock instrumental Fóssil, de Eric Barbosa, que, além do músico, agrega os migrantes musicais de Fortaleza em São Paulo.

"A marca dessa nova geração é que ninguém tem mais residência fixa. Não é tão necessário sair de Fortaleza e várias casas importantes de São Paulo estão fechando. Mesmo assim, quem está aqui, acaba trabalhando de roadie, engenheiro, ou qualquer coisa para os amigos. É um êxodo positivo."

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