PEDRO JARDIM DE MATTOS|DIVULGAÇÃ
PEDRO JARDIM DE MATTOS|DIVULGAÇÃ

Daniela Galli encena, em Nova York, ‘The Other Mozart’

Atriz vai montar monólogo que apresenta a irmã do grande compositor austríaco

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2016 | 06h00

O que seria uma rotineira compra de direitos autorais de uma peça estrangeira transformou-se na elogiada participação em uma montagem da Broadway. Interessada em montar no Brasil o monólogo The Other Mozart (A Outra Mozart), que apresenta a irmã do grande compositor austríaco, a atriz Daniela Galli saiu da sala de negociação com um convite para interpretar a própria Nannerl Mozart em algumas apresentações do espetáculo, em Nova York.

Assim, desde o dia 15 de maio, ela alterna com a própria autora do monólogo, Sylvia Milo, e com a alemã Samantha Hoefer o palco do Players Theatre, em Nova York. O convite foi motivado pela emoção com que Sylvia e o diretor Isaac Byrne acompanharam um teste realizado pela brasileira, condição indispensável para a liberação dos direitos.

“Quando entrei em contato sobre adquirir os direitos de produção da peça no Brasil, Sylvia e Isaac Byrne me pediram para fazer uma audição com base em três cenas da peça em inglês, onde Nannerl aparece em tempos diferentes: quando criança, adolescente e depois mais madura e resignada”, conta Daniela. “Acho que buscavam ver como eu navegaria por esses momentos tão distintos da vida da personagem, sem perder sua essência – qualidade importante para o espetáculo, visto que além de interpretar Nannerl, preciso incorporar vários outros personagens a partir de seu ponto de vista. Porém, acredito que o que mais os marcou foi a honestidade dos meus sentimentos e ações na interpretação – a personalização de Nannerl através do meu olhar.”

A língua não foi empecilho, pois Daniela é fluente no inglês. E, com os direitos garantidos, ela pretende montar uma versão brasileira no primeiro semestre de 2017, com produção da Morente Forte.

O grande charme do espetáculo está em apresentar Maria Anna Walburga Ignatia Mozart (1751-1829), apelidada Nannerl e irmã mais velha de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), um dos maiores compositores de música clássica de todos os tempos. E, embora não tenha sobrado nenhum documento comprobatório, Nannerl era tão talentosa como o genial irmão.

“Tudo indica que Nannerl tinha o mesmo talento extraordinário de Wolfgang – a primeira sinfonia que ele compôs, aos 7 anos de idade, acredita-se ter sido escrita e orquestrada por ela, aos 12”, conta Daniela Galli. “Sua dimensão histórica foi resumida na inscrição de sua lápide: ‘irmã de Wolfgang Amadeus Mozart’.”

O motivo de praticamente não existir nenhuma composição confirmadamente criada por Nannerl está no fato de ela ter vivido na Europa do século 18, época em que toda jovem deveria pensar apenas em se casar e se dedicar exclusivamente ao marido e aos filhos. “Tocar um instrumento era uma qualidade como saber costurar, cozinhar e economizar despesas domésticas. Era importante reunir uma série desses atributos, mas expô-los na medida “certa”; se a mulher se destacasse em demasia, já não era bem vista, era escandaloso”, conta Daniela.

Wolfgang e Nannerl foram crianças prodígio e muito incentivadas pelo pai, Leopold, que lhes ensinou música, matemática, literatura, história e filosofia. Mas, aos 17 anos, idade considerada “matrimoniável”, Nannerl parou de viajar e de se apresentar ao lado do irmão, que se tornou a grande aposta musical da família. “As dificuldades de Nannerl não foram ‘privilégio’ dela – Fanny Mendelssohn Hensel, irmã de Felix Mendelssohn, também foi um grande talento musical esquecido pela história.”

A polonesa Sylvia Milo escreveu The Other Mozart a partir de fatos e histórias relatadas nas cartas trocadas entre os membros da família Mozart. Nelas, além do constante humor, também são evidentes o amor, o carinho e a cumplicidade entre Nannerl e Wolfgang. “Não há traços de inveja do irmão”, atesta Daniela. “Ao contrário, ambos se apoiavam e se instigavam constantemente. Amadeus era um grande admirador do talento musical da irmã. E Nannerl, além do sentimento genuíno pelo irmão, sabia que seu destino dependia do sucesso dele. Se ele conseguisse a tão desejada posição na corte, ela poderia dedicar-se à música.”

Em cena, Daniela veste um longo vestido composto por cartas, que são “as guardiãs dessa história com todas as suas maravilhas e impossibilidades, suas esperanças e fatalidades”. Ela conta que todos os objetos de cena, inclusive um piano de brinquedo, são guardados nos bolsos do vestido. “É o mundo de Nannerl, território encantado que ela percorre durante a infância e adolescência, mas que muda de sentido com a chegada da maturidade – vestir essa saia e o espartilho é assumir as aparências impostas socialmente e, por fim, a prisão de não poder ser quem essencialmente era”, conta Daniela, que estudou música clássica e renascentista, quando criança e adolescente. “Uso a música ao me preparar para cada personagem.”

 

ANÁLISE: O que não sabemos sobre Nannerl, a irmã de Mozart

João Luiz Sampaio

Maria Anna Walburga Ignatia Mozart, apelidada Nannerl, nasceu em julho de 1751. Orientada pelo pai Leopold, tornou-se ainda na infância uma virtuose do cravo. “A irmã de Mozart toca como um mestre e ele a aplaude”, anotou o conde Karl von Zinzendorf em 1762. “Apesar dos 12 anos, minha menina é uma das mais talentosas intérpretes da Europa”, escreveu o pai em 1764.

Mas, à medida em que o talento do irmão mais novo torna-se evidente, o nome de Nannerl desaparece. Sabemos apenas que, aos 18 anos, quando completa a idade para se casar, o pai a proíbe de seguir em turnês com Mozart. Significativo que, de seu trabalho como compositora, tenha restado apenas uma citação do irmão, em uma carta na qual comenta uma canção escrita por ela e afirma estar surpreso com sua capacidade de “compor algo tão bonito”. “Continue tentando”, emenda, com condescendência.

Tornou-se lugar-comum dizer que, na história de Mozart, Nannerl merecia ser mais do que uma nota de rodapé. Nannerl, na verdade, merecia ser dona de sua própria história. Uma história que passa ao largo de uma questão que costuma surgir: ela poderia ter sido tão grande ou maior que o irmão? Não há como saber. E chegar a essa resposta parece menos importante do que discutir o modo como costumes da época se somaram ao olhar da história da música e, juntos, optaram, com relação a ela e tantas outras, pelo silêncio.

Um silêncio que se torna ainda mais absurdo quando se leva em conta como o mundo da música clássica segue machista. Maestrinas ainda inspiram controvérsias e desconfianças, mulheres são minorias nas orquestras (em Viena, só foram aceitas no final dos anos 1990!), nos conselhos de administração ou mesmo em cargos executivos. Olhar para Nannerl pode ajudar também a pensar um presente que, em alguns momentos, se parece demais com o passado.

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