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Daniel Galera lança romance 'Barba Ensopada de Sangue'

Durante um baile dominical, aquele em que todos os habitantes de uma cidade pequena se encontram, repentinamente faltou luz. Dez minutos depois, com a situação restabelecida, um homem surge estirado no chão, morto por várias facadas. Ninguém se surpreende - na verdade, o silêncio impera. Conhecido por seu temperamento irascível, o falecido não deixa saudade e o desaparecimento de seu corpo se torna um caso insolúvel para a polícia, pois não há vestígios tampouco algum depoimento que ajude elucidá-lo.

AE, Agência Estado

08 de novembro de 2012 | 10h26

"Meu pai contou essa história há muitos anos, quando costumávamos passar o verão em Garopaba, no litoral catarinense", relembra o escritor Daniel Galera. "Nunca soube se era algo realmente verdadeiro ou um daqueles mitos que marcam uma sociedade." O certo é que a história não saiu de sua cabeça e anos depois inspirou "Barba Ensopada de Sangue", livro que a Companhia das Letras lança até sábado.

Trata-se de um dos melhores romances brasileiros deste ano e certamente um ponto alto na carreira de Galera, sempre lembrado como um dos mais promissores entre os jovens autores nacionais. O tom musical da prosa e o modo como os diálogos - precisos e rápidos - servem de contraponto à ação, como bem observou o argentino Ricardo Piglia, transformam "Barba Ensopada de Sangue" em um livro muito forte, "a um tempo engenhoso e desprendido, alternando o grau zero e o alto grau de escrita", na opinião de outro autor, Francisco Bosco.

O assassinato foi o ponto de partida. A lenda dizia se tratar de um cidadão de Garopaba, mas Galera preferiu transformá-lo em um gaúcho, Gaudério - há uma grande incidência deles morando na cidade catarinense. O escritor também viveu uma temporada lá, cerca de um ano e meio, fazendo anotações, germinando ideias, destrinchando o local. "Não pretendi apresentar um retrato fiel da cidade, mas utilizar sua geografia como espaço vital para o desenvolvimento da história."

Assim, o romance acompanha a trajetória do protagonista (cujo nome não é revelado), um professor de educação física, que decide viver em Garopaba. O que o motiva é uma história contada pelo pai antes de seu suicídio, sobre o misterioso desaparecimento do avô, Gaudério, que morava na cidade catarinense - ele foi supostamente assassinado daquela forma, esfaqueado durante o blackout acontecido durante uma festa dominical. Aparentemente, foi enterrado como indigente em uma cova sem identificação, mas há também a versão de que seu corpo foi atirado ao mar.

Acompanhado de Beta, cadela do falecido pai, o professor empreende a busca pela verdade, mergulhando em um isolamento geográfico e psicológico. No período passado em Garopaba, ele faz algumas amizades, desperta paixões, mas, principalmente, transforma-se em ''persona non grata'' por conta da investigação. Pior: sua incrível semelhança física com o avô perturba a população, especialmente os mais velhos, que conheceram Gaudério.

Em seu quarto romance, Daniel Galera, paulistano nascido em 1979, consolida a estatura de um escritor sério, robusto, tranquilo, como bem adjetiva o português Gonçalo M. Tavares. Sua escrita fluente não perde o prumo mesmo com digressões ou revisões de perspectivas, independentemente do personagem. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

BARBA ENSOPADA DE SANGUE

Autor: Daniel Galera. Editora: Companhia das Letras (424 págs., R$ 39,50).

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