Daniel Filho volta ao cinema

No set de Queridos Estranhos Daniel Filho é o único com camarim. É o único que tem uma cadeira com o nome gravado. É o único que almoça sushi na salinha com ar condicionado - enquanto todos comem arroz e feijão sob o calor de 30 graus do Rio. Daniel Filho, o diretor artístico da Globo Filmes, não é o diretor do longa-metragem. É o protagonista. Depois de quase 15 anos atrás das câmeras, ele volta a atuar no papel do pai de família Alberto, no filme de Ricardo Pinto e Silva baseado na peça Intensa Magia de Maria Adelaide Amaral. As regalias para o ator têm o tamanho do currículo. Além de ser um dos homens mais poderosos da Globo - pode-se dizer que sua história se mistura à da emissora - Daniel atuou em obras importantes do cinema brasileiro nos anos 60, como O Boca de Ouro e Os Cafajestes. Daniel Filho também é um dos poucos brasileiros - senão o único - que passou por todas as etapas de produção de um filme. Simpático e receptivo - em nada autoritário e arrogante, adjetivos que, não raro, lhe são atribuídos -, Daniel Filho conversou durante quase uma hora com o JT no estúdio Cinédia, em Jacarepaguá (Rio de Janeiro), onde o filme está sendo rodado. Deu uma aula sobre cinema, falou de teatro, projetos, menos sobre televisão, "Só falo para quem me paga". Leia os principais trechos da entrevista. Jornal da Tarde - Faz quase 15 anos que você não atua. Por que resolveu voltar? Daniel Filho - Na verdade foi uma ordem de Maria Adelaide.(risos) Eu aceitei sem ler roteiro. Mas não voltei a atuar antes por falta de tempo, mesmo. Os convites apareciam. Agora, como estou numa espécie de férias, disponível na Globo e em espaço de preparação de filmes na Globo Filmes, aproveitei para me divertir fazendo um filme. Atuar é uma das coisas que eu mais gosto de fazer. E o papel? Estamos fazendo uma peça filmada. Ainda não tenho a menor idéia de como vai funcionar no cinema. O personagem é biográfico ao pai de Adelaide e isso traz uma certa responsabilidade. Ele era um camarada meio revoltado com a vida, mas tinha um bom humor muito especial, sarcástico. Realmente era um homem só em sua família, frustrado. Qual é a sua visão do cinema nacional hoje? Acredito que há bastante produção e pouca distribuição. Só alguns poucos eleitos conseguem uma boa distribuição. Mas a verdade é que o cinema brasileiro precisa de ajuda. Dinheiro. A dificuldade é muita. Até os filmes que fazem sucesso têm problemas para se manter em cartaz. Eu mesmo tive problemas com A Partilha. Mas tem gente se mexendo para que o cinema exista e isso é um exercício fundamental. Um exercício que ficou parado muito tempo... Sim. E ficando parado ele se perde. Perdendo o exercício a gente perde a prática, principalmente com os profissionais por trás das câmeras. Muitas pessoas deixaram a profissão e outras vivem dos comerciais. Quer dizer, se não existissem os comerciais, possivelmente não existiria a maioria dos cineastas que estão aí hoje. Sobreviveram todo esse tempo graças aos comerciais. E ainda sobrevivem? Sim. Não dá para viver de cinema. Eu que sou dono de um percentual grande de um filme de sucesso, se for colocar as contas no papel e incluir o tempo que dediquei ao filme, vejo que o dinheiro que ganhei não paga a metade. É muito difícil conseguir dinheiro. Mas o pessoal está produzindo. Você vê saída para vencer estas dificuldades? A baixa produção. Agora, com o digital, tudo fica mais fácil. Esse filme está sendo feito em 16mm e poderá ter um acabamento técnico visual melhor do que ´A Partilha´ que foi feito em 35mm. O digital não só o deixa muito mais barato, como você consegue uma qualidade boa. E não estou falando de efeitos. O digital proporciona uma democratização cinematográfica. É uma solução para o filme barato. O barato não quer dizer ruim, porque você pode trabalhar bastante no roteiro, pode ter algo bem iluminado. O que é barato e caro? Traduza o que você fala em números.Bom, é complexo. Não é só filmar que custa dinheiro. O anúncio e o lançamento custam, às vezes mais que o filme. Se uma produção custar R$ 500 mil, você tem de contar cópias. Dez cópias estamos falando em mais ou menos R$ 30 mil. Mais anúncios em jornais, traillers, banners. Tudo isso é o orçamento do filme. Um filme barato, vou abaixar o preço para R$ 300 mil, precisa de mais ou menos 150 mil espectadores para pagá-lo. A realidade brasileira não nos permite fazer filmes de R$ 10 milhões. Quanto a Globo Filmes libera para a produção de um filme? Para ´Carandiru´, por exemplo?A Globo Filmes não é uma produtora, é uma sócia. A Globo só pode participar de uma produção. Tanto é que ´A Partilha´ é uma produção minha. Custou R$ 2,8 milhões. É um filme caro para o Brasil. ´Carandiru´ é um filme caríssimo. É absurdo. É uma superprodução de Hector Babenco. Então entra dinheiro de fora. A Sony e a Columbia bancam. Mas essas empresas bancam um Babenco, que é um diretor internacional. Ele é um dos privilegiados. Waltinho Salles agora começa a atuar assim. Mas a Globo roda filmes mais baratos, também. Temos projetos lá de pouco mais de R$ 1 milhão. E o teatro? Você começou no palco há quase 40 anos. Não tem vontade de voltar a fazer? Um dos convites que recebi para atuar ano passado e não pude aceitar porque estava acabando de finalizar ´A Partilha´, era para uma peça no teatro. A Marília Pêra me convidou. Havia a possibilidade de eu voltar. Teatro é assim. Não me envolvo desde 1961/62. Faz muito tempo mesmo! Mas é como disse à Marília: teatro é que nem bicicleta: se aprende uma vez e não se esqueçe mais. Nasci no teatro e penso em voltar. Como a peça acabou não sendo montada, quem sabe? Agora, estou a fim mesmo de aceitar o convite. Vamos falar sobre televisão... (Interrompe) Não vou falar sobre televisão, não. Estou fora há um ano e meio. Sou contratado da Rede Globo. Se tivesse que dar alguma opinião sobre tevê eu daria à Globo. Mas como nem ela me pede, então eu não dou. Me preocupo sim com a televisão como um veículo. Sem modéstia nenhuma, um veículo que ajudei a construir no Brasil. Falo isso com absoluta certeza porque é verdade. Gostaria que isso continuasse existindo, que ampliasse seu campo em todos os sentidos e que continuasse empregando muitas pessoas.

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