João Caldas/ Divulgação
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Daniel Dantas de Zezé Polessa revivem clássico 'Quem Tem Medo de Virginia Woolf?'

A realização de uma nova montagem de Quem Tem Medo de Virginia Woolf? no Teatro dos Quatro traz à tona - pelo menos, até certo ponto - um passado saudoso. Conduzido durante 15 anos (entre 1978 e 1993) por Sergio Britto, Mimina Roveda e Paulo Mamede, o espaço, localizado no Shopping da Gávea, no Rio, era reconhecido por espetáculos que evidenciavam um padrão de qualidade em termos de produção, reuniam atores notabilizados e priorizavam textos importantes ou pouco difundidos no Brasil. A encenação da peça de Edward Albee, assim, evoca uma época em que esse teatro seguia determinada proposta de repertório - e deve desembarcar em São Paulo em 2014.

Daniel Schenker/ RIO, Especial para O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2013 | 02h21

Além disso, tanto Zezé Polessa e Daniel Dantas - que interpretam agora Marta e Jorge, casal que vive relacionamento passional norteado por perverso jogo emocional - participaram de trabalhos no Teatro dos Quatro: ela fez A Mulher que Matou os Peixes (1994), espetáculo infantojuvenil de Lúcia Coelho para o original de Clarice Lispector, e Mephisto (1993), versão de Ariane Mnouchkine para a obra de Klaus Mann; e ele foi o alter ego de Mauro Rasi em O Baile de Máscaras.

O sabor familiar em Quem Tem Medo de Virginia Woolf? é realçado pelo fato de Zezé Polessa e Daniel Dantas terem sido casados e estarem firmando vínculo profissional com o filho, João Polessa Dantas, que integrou esse projeto como tradutor do texto de Albee. "João tem grande conhecimento de português e inglês e me ensinou bastante", diz Zezé.

A atriz também lembra com carinho de quando contracenou com ele em A Mulher que Matou os Peixes. "Eu me deparei com o livro da Clarice e fiquei encantada desde a primeira frase, na qual ela dizia: 'essa mulher que matou os peixes infelizmente sou eu'. Achei lindo, franco", conta Zezé, que retoma parceria com o diretor Victor Garcia Peralta depois do monólogo Não sou Feliz, mas tenho Marido (2006).

Interpretar personagens que atravessam relação desgastada não foi fácil para Zezé Polessa e Daniel Dantas. "Eu e Zezé formávamos um casal apaixonado. Mas discutíamos muito. Nossas brigas, porém, eram mais civilizadas que as travadas entre Marta e Jorge", compara Dantas. Antes de Virginia Woolf, ambos atuaram juntos como integrantes do grupo Pessoal do Despertar em espetáculos como O Despertar da Primavera (1979), de Frank Wedekind, O Círculo de Giz Caucasiano (1983), de Bertolt Brecht, e no cinema em Caixa 2 (2007), de Bruno Barreto.

Em Quem tem Medo de Virginia Woolf?, Zezé e Daniel dividem o palco com Erom Cordeiro e Ana Kutner, que surgem em cena como Nick e Mel, casal mais jovem e atado a convenções sociais que é convidado para passar uma madrugada na casa de Jorge e Marta. A crescente troca de agressões entre o par mais velho faz com que o elo do casal mais novo se revele menos estável do que parece a princípio.

Cartão de visitas da dramaturgia de Albee, Virginia Woolf rendeu, em 1966, uma célebre e premiada adaptação para o cinema, a cargo de Mike Nichols, com Elizabeth Taylor e Richard Burton no elenco, e algumas montagens no Brasil, assinadas por Maurice Vaneau - com Cacilda Becker, Walmor Chagas, Lilian Lemmertz e Fúlvio Stefanini, em 1965 -, Antunes Filho - com Raul Cortez, em 1978 - e João Falcão - com Marco Nanini e Marieta Severo, em 2001.

Escrita em 1962, a peça agrega características do período. Marta e Mel, por exemplo, não trabalham, enquanto Jorge e Nick são professores universitários. Sem perder de vista a conexão com a década de 60, Victor Garcia Peralta buscou ressaltar o caráter atemporal do texto.

"Albee descreve um universo de homens numa peça que subverte valores, furiosa naquele instante. Contudo, procuramos não datar porque os conflitos entre os personagens transcendem fases específicas. Virginia Woolf é possivelmente o texto mais contemporâneo que já fiz", opina Peralta, que costuma dirigir montagens de peças coloquiais centradas em relacionamentos, como Os Homens São de Marte... E É pra Lá Que eu Vou (2005), de Mônica Martelli, e O Submarino (2013), de Miguel Falabella.

Seja como for, para Victor Garcia Peralta o mundo talvez tenha se tornado mais careta. "Hoje nós brincamos de ser liberados, mas caímos na patrulha do politicamente correto e passamos a nos censurar", avalia.

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