DANIEL AUTEUIL E A GLÓRIA DE RECRIAR PAGNOL

Astrid Bergès-Frisbey é a própria "fille du puisatier", a filha do poceiro, no filme que Daniel Auteuil adaptou de Marcel Pagnol. Com dupla nacionalidade, francesa e espanhola, Astrid, embora jovem, já teve uma passagem por Hollywood, onde fez a sereia de Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas. Como ela disse ao repórter, o que Daniel Auteuil se propôs em A Filha do Pai (título que o filme recebeu no Brasil) foi o prazer do texto de Pagnol. "É um autor regionalista, que trouxe para o teatro e o cinema o sotaque meridional. Nem sempre é fácil, e pode soar caricatural, mas Daniel, com seu amor dos personagens, conseguiu."

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2012 | 02h05

No Dicionário de Cinema, Jean Tulard diz que Pagnol foi um autor completo - teve tudo, dinheiro e fama, grandes tiragens e a Academia Francesa. Seu amor pelo cinema se manifestou cedo e ele criou a revista Cahiers du Film, em que atacava os diretores do silencioso. Pagnol, como cineasta, é um produto do sonoro - interessa-lhe o diálogo, e o sotaque. Os críticos, em geral, consideram Topaze, de 1936, sua obra-prima. Orson Welles amava A Mulher do Padeiro, de 1937, e o próprio Pagnol filmou La Fille du Puisatier, em 1940. Desta vez, os críticos recuaram e acharam que o filme dava mostras de esgotamento, devido ao excesso de convenções melodramáticas.

Sem alarde da crítica, A Filha do Pai tem levado bom público aos cinemas que exibem o filme. No fim da sessão, os espectadores, principalmente os mais velhos, permanecem atados às poltronas para desfrutar até o fim a delícia de ouvir Catarí, na voz de Enrico Caruso, que serve de motor para a trilha de Alexandre Desplat. É a música preferida de "mamãe", mas, quando o filme começa, ela já morreu. O poceiro, o próprio Daniel Auteuil, cria as filhas e Astrid, que foi para Paris, volta para cuidar das irmãs e do pai. Ela se envolve com o filho do dono da loja. Ele parte para a guerra, Astrid engravida, o pai a expulsa de casa. O pai reflete com amargura - nada disso teria ocorrido, se a mulher estivesse ali. Tudo termina bem - o excesso de convenções melodramáticas faz de A Filha do Pai um belo exemplar do gênero. Mas, não se iluda, o tempo todo o diálogo de Pagnol está subvertendo a imagem e, muitas vezes, o próprio sentido das cenas. Daniel Auteuil sabe disso - a despeito de sua aparente leveza, o filme trata o tempo todo de dilemas morais.

A Filha do Pai começa muito falado, e essa é uma característica que, até o final, não será abandonada, embora a paisagem da Provence cada vez se faça mais importante. A imagem é aquilo que os franceses chamam d'Épinal - de uma beleza de cartão postal. E o tempo todo o que está em cena é o conceito de família. O pai, que rejeita a filha, a traz de volta para casa, por amor ao neto, que carrega seu nome. A reviravolta do final traz saborosas reflexões sobre quem pertence a quem. O avô quer deixar claro que o neto é dele. O pai tem uma fala shakespeariana em que encerra o assunto, dizendo que o avô é que é do neto.

Há um prazer do texto, da história bem contada que é emocionante em A Filha do Pai. Daniel Auteuil fez um filme de um encanto um pouco antigo, como o díptico que Yves Robert também adaptou de Pagnol em 1990 - A Glória de Meu Pai e O Castelo de Minha Mãe. E não se pode esquecer que ele próprio foi ator em outro díptico baseado no escritor - Jean de Florette e A Vingança de Manon, ambos de Claude Berri e com sua ex-mulher, Emmanuelle Béart, nos quais fazia Ugolin. Mas uma coisa Auteuil deve a Pagnol, e não é só a própria história de A Filha do Pai. À revista Cahiers du Cinéma, Pagnol confiou certa vez que, no cinema, "nada sai da câmera." É preciso colocar o que é necessário, com um diretor que saiba escolher e dirigir os atores. Auteuil soube escolher muito bem o seu elenco, a começar por ele mesmo, como o poceiro.

Kad Merad, Nicholas Devauchelle, Sabine Azéma, Jean-Pierre Darroussin, Emilie Cazenave, são todos ótimos. Astrid Bergès é especial. Como ela contou ao repórter: "Daniel (Auteuil) montou o elenco com atores que já conhecia e com quem havia trabalhado. Faltava a garota. Fiz o teste porque me interessava muito interpretar Patrícia (a filha do poceiro). Foi um de meus primeiros papéis na escola de teatro e eu achava que poderia fazer alguma coisa interessante, voltando a ele, agora com mais experiência. O curioso é que Daniel nunca quis que a gente visse o original de Pagnol. Sua referência era Luchino Visconti, La Terra Trema, um filme em preto e branco, em tudo diferente de A Filha do Pai. Mas havia lá a família, a questão moral e a paisagem, tudo que é importante para ele."

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