Dani Gurgel tem o sangue no mesmo tom do mar

Imagine alguém que compartilha o que há de melhor em sua vida. E que deseja, sinceramente, ser igual a todos. Sem hipocrisia. A cantora Dani Gurgel, 25 anos, não tem tempo de ficar pensando o que vão pensar dela. Claro, ela quer ser ouvida, quer se expressar. E achou um meio de fazer isso. É uma concessão à forma, e das melhores. E no DVD "Viadutos", lançado em novembro com a ajuda de pessoas que pensam o mesmo - ou abriram uma digna concessão à sua obstinação - o resultado está explícito e registrado: ela não é mais uma jovem promessa, já está no topo da lista das melhores cantoras do Brasil. E começa 2011 com dois shows no exterior: dia 9 de janeiro no Vinilo Café, em Buenos Aires, na Argentina; dia 11 no Festival Jazz a la Calle, em Mercedes, no Uruguai.

ROGER MARZOCHI, Agência Estado

24 de dezembro de 2010 | 20h33

Desde 2007, quando lançou o primeiro disco, "Dani Gurgel", ela acentuou uma de suas principais características: não para quieta. Já conta com outros dois discos "Nosso" e "Agora". Organizada e talentosa, ela coloca todos com a fuça na cara do gol. Monta planilhas para batalhar por recursos do Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo (Proac), que financiou o DVD pelo selo Borandá, carrega cenários de shows, compõe, canta e trabalha como fotógrafa, clicando artistas importantes da música. Na antevéspera do Natal, também venceu mais uma: ganhou novo projeto no Proac para criar um site de entrevistas e download gratuito de músicas.

A música ainda é como uma vida paralela para a cantora, mas ela consegue ver na fotografia muita semelhança com a sua arte. "A hora de entrar na música e a hora de bater uma foto, acho que é muito parecida com a sensação do ritmo de tudo que está acontecendo em volta", explica, no DVD, gravado no início de julho. Para entender essa sua consciência do presente é preciso chegar mais perto. Dani é filha da pianista Debora Gurgel, que também conquistou recursos do Proac agora, em dezembro, para a gravação de um disco inédito. Debora integra a banda com Thiago "Big" Rabello na bateria, Michi Ruzitschka na guitarra e Daniel Amorin no contrabaixo.

Assim como a mãe, começou a estudar música cedo. Debora iniciou o estudo de piano aos 8 anos. Dani, quando tinha 3, percebeu o prazer da mãe com seu trabalho, na escola de música do Zimbo Trio (Clam), tocando com Roberto Sion, Amilton Godoy, Percio Sapia, Nelson Panicali, Vinícius Dorin, a lista é grande. Além de piano, estudou sax, flauta e ainda queria saber como que essas danadas ondas se propagam no ar, no meio eletrônico, e cursou Engenharia Elétrica na Escola Politécnica da USP.

"Desde que elas eram pequenas", explica Debora, que também é mãe de Luiza. "Elas me vêem tocando como uma coisa prazerosa. Sempre fizemos sarau em casa, sempre procurei puxar os ganchos: vamos tirar na flautinha, no piano? Mas de uma forma não forçada. Elas pediram para entrar na escolinha de música. Eu trabalhava na escola do Zimbo Trio, viam piano pra cá, pra lá, e me viam feliz. E diziam: eu também quero." Dani confirma: "eu vi o jeito que ela gostava e o prazer que tinha em tocar, eu disse, também quero esse brinquedo." Começa o paralelismo com o mundo da música instrumental.

Dani começou a estudar flauta doce, aos 4 anos, na Clam. "E quando meu pézinho conseguiu alcançar o pedal do piano, fui para o piano; quando meu dedinho da mão direita conseguiu alcançar as notas graves, eu fui para a flauta transversal; quando consegui colocar um saxofone no pescoço e não cair no chão, fui para o saxofone. A voz, eu só comecei pra valer com 15 ou 16 anos", lembra. Mas quando ela quis tocar contrabaixo, a mãe não perdoou. "Então vamos trabalhar. Eu fazia muitos eventos e a carregava comigo: contrabaixo e piano tocando jazz e música brasileira. ''Como assim improvisa?'', ela dizia. E eu: ''Se vira''", diverte-se Débora.

Dani tocou saxofone na banda do maestro Roberto Sion, mas quando tinha uns 15 anos, começou a fazer rock em festivais do colégio. Mas ela queria montar uma banda de música brasileira, com músicas próprias, e com os amigos Vinícius Calderoni e To Brandileone, hoje cantores e compositores parceiros da cantora, criaram a banda "Quincas". "Minha casa foi a casa da bagunça musical. Considero todos esses meninos meus filhos", diz Débora.

Foi quando Dani percebeu que poderia cantar e aglutinar talentos. "Aí que entra a lição que eu levo da Elis Regina, que é olhar para os lados, e ver o que tem de novo acontecendo. Porque quando ela gravava o João Bosco, o Gil, era todo mundo molecada", diz Dani, que tem contribuições importantíssimas também de Thiago Rabello, Rafa Barreto, Vicente Barreto, Breno Ruiz, Tatiana Parra, Fábio Barros, Ricardo Barros, Caê Rolfsen, Fábio Cadore, Rômulo Froes, Zé Edu Camargo, Leo Minax, Michi Ruzitschka, Daniel Amorim, Filó Machado. E muitos outros que mereceram ocupar o espaço da capa do disco "Agora", o último de Dani, que reuniu 20 compositores.

E no DVD, assim como no show no Teatro Tuca, no dia 9 de dezembro, em homenagem a Chico Buarque, é possível perceber que há uma cantora madura, que improvisa e interage intensamente com os outros músicos. "A maior influência do jazz no que a gente faz não é nem rítmica. É muito harmônica. Mas a maior influencia é da liberdade, de tocar junto, tocar um com o outro, um interferindo no que o outro está fazendo. Eu começo a cantar de um jeito e, se minha mãe sugere alguma coisa no piano, eu mudo o jeito que estou cantando", diz Dani. Por isso, há erro na divulgação do trabalho. Ela não vai do pop ao jazz. Ela leva o jazz para onde vai. E não canta crônicas de São Paulo. Ela é brasileira. Como o refrão da música de Rafa Barreto e de Dani Gurgel, "Cinza", lançada no DVD: "Imagina quem tem não mão a cor para misturar. Imagina quem tem no sangue o tom que tem no mar. Imagina quem tem o dom de se lançar, sem olhar."

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