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Danças da morte

Faltam ainda três meses para o centenário da Primeira Guerra Mundial, e se me apresso a usá-lo como gancho para esta coluna é porque desejo estimular a editora Rocco a reeditar até julho um livro de seu catálogo, A Sagração da Primavera, de Modris Eksteins, há tempos esgotado.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2014 | 02h09

É um dos ensaios mais fascinantes sobre aquela carnificina, mormente por relacionar a guerra que pôs fim ao império austro-húngaro com a cultura do início do século passado, por associar os canhões de agosto de 1914 às primeiras explosões do modernismo. Daí seu subtítulo: "A Grande Guerra e o Nascimento da Era Moderna". Vanguarda, não custa lembrar, é um termo de origem militar.

Publicado em 1989, ainda tenho a edição brasileira, de 1991, hoje só disponível num sebo de São Paulo, que pelo único exemplar em estoque está cobrando R$ 150. É possível ler suas 420 páginas no original (Rites of Spring), à venda na Livraria Cultura por R$ 40,90 e na Amazon (versão Kindle, US$9.19), mas o ideal é que a tradução, se bem me lembro correta, seja reeditada.

Como é sabido, o século 20 não começou em 1900 ou em 1901, e sim em 1914, com a maior e mais sangrenta guerra que a Europa, em paz havia décadas, enfrentara até aquele momento. Em quatro anos, 9 milhões de mortos, 21 milhões de feridos, cidades devastadas, economias arruinadas. Sob seus escombros o mundo da Belle Époque, das valsas, dos kaisers e czares desapareceu. Com o irracional aliado ao tecnicismo e a estética substituindo a ética, os ideais de liberdade, igualdade, fraternidade, dignidade e justiça saíram de cena para que o hedonismo e o narcisismo pudessem encenar seu grand-guignol futurista.

Quinze meses antes do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo, outra guerra, sem vítimas fatais, se desenrolara em Paris, no Théatre des Champs-Elysées: a encenação do revolucionário espetáculo coreográfico Le Sacré du Printemps, de Stravinski, Sergei Diaghilev e Nijinsky. Balé sem enredo, era uma representação da Rússia pagã, unificada pelo "mistério e o jorro criativo da primavera", uma celebração da vida através da morte sacrificial, com bailados bizarros e música de excêntrica estrutura rítmica. Nem todos os convivas estavam preparados para tamanha dissonância. Em meio a gritos, vaias e agressões, o espetáculo quase não chegou ao fim. Nascia naquela noite primaveril de 29 de maio de 1913 a arte como provocação, a arte moderna enfim.

"Muitas vezes durante a guerra científica, química, cubista, mas noites que os reides aéreos tornavam terríveis, pensei em Le Sacré du Printemps", anotou em seu diário o pintor Jacques-Emile Blanche. Foi ao ler este trecho, enquanto fuçava cartas, diários e mementos de ex-combatentes num museu de Londres, que Eksteins, historiador canadense nascido na Letônia, sacou qual rumo seu livro devia tomar.

Mas por um triz não tomou, por causa de um presumido concorrente.

Não me refiro ao romance homônimo do cubano Alejo Carpentier, escrito nos anos 50, tendo como heroína uma bailarina russa da trupe de Diaghilev foragida da Revolução Soviética, portanto sem vínculo direto com a histórica encenação de Le Sacré du Printemps, mas ao estudo de Paul Fussell sobre a influência da Grande Guerra no imaginário contemporâneo, The Great War and the Modern Memory, editado em 1976. Eksteins não recuou. Fussell, por sinal, foi um dos primeiros a reconhecer e exaltar a singularidade de A Sagração da Primavera.

Além da primeira primavera, com a audaciosa e inovadora "dança da morte" de Stravinski e dos Ballets Russes, houve a de 1932, quando Hitler concorreu à presidência da Alemanha, a de 1933, quando os nazistas fizeram aquele auto de fé com todos os livros proscritos pelo regime, e a de 1945, quando soldados, ordenanças, secretárias e outros serviçais de Hitler, em memorável demonstração de vitalismo dionisíaco, improvisaram outra dança da morte, enquanto o Führer se suicidava em outro canto do Bunker.

Em sua história cubista, Eksteins faz um balanço exaustivo do espírito das primeiras e decisivas décadas do século passado, repondo em perspectiva o lado dark dos anos 20, com suas formas austeras e retilíneas (na arquitetura, nas artes plásticas e nas roupas femininas) e sua atmosfera angustiante (no palco e na tela), notadamente na Alemanha, a matriz da tempestade.

Embora a estreia de Le Sacré du Printemps tenha sido em Paris, Berlim era, na época, a metrópole moderna por excelência, um centro mais renovador, aberto a todas as vanguardas, lá aceitas sem restrições e com maior rapidez. Teriam os berlinenses recebido o balé de Stravinski com menos acrimônia? Outra especulação: teria a guerra eclodido no verão anterior, frio e chuvoso, sem condições favoráveis a agitações de rua, sem plateia para a oratória inflamada dos chauvinistas que entre o fim de julho e o começo de agosto de 1914 empurraram os líderes políticos e militares da Europa ao confronto?

Foi uma guerra esperada e ardorosamente desejada. Não apenas por militares, políticos e pela choldra histérica e jingoísta, mas também por artistas e intelectuais; alguns surpreendentes, como o poeta Rainer Maria Rilke e os escritores Thomas Mann e Hermann Hesse. Os alemães, alardeou Rilke num poema, ardiam "num único Ser revigorado pela morte" - ele inclusive. Mann acreditava que a guerra libertaria seus contemporâneos de uma "realidade apodrecida". Hesse, que cinco décadas depois seria canonizado pelo pacifismo hippie, admitiu a um amigo ter "na mais alta conta os valores morais da guerra em geral".

Todos haviam sido vampirizados pela ideia de que a guerra era uma forma de arte, uma representação superior da vida; e que "o horror e a tristeza só teriam significado e seriam superados quando a humanidade reconhecesse que a salvação estava nos valores estéticos, no simbolismo de vida e morte, e não em estéreis normas sociais." Depois que a matança teve início, Rilke, consternado, recolheu-se ao silêncio. Afinal descobrira que a guerra nada revigora, só mata e destrói.

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