Dança ganha revista feita no Rio

A dança contemporânea ganha hoje uma revista semestral, feita no Rio de Janeiro. É a Gesto, produzida pelo instituto RioArte, da prefeitura carioca. Com 74 páginas de um design leve e textos de fôlego, a Gesto pretende se consolidar como publicação sobre dança e questões relativas ao corpo na atualidade. A proposta editorial criada pela jornalista Luciana Hidalgo, editora da Gesto, é dedicar a maior parte das páginas da publicação a ensaios. Mas isso não a torna uma publicação difícil. Gesto é similar a outra revista de cultura financiada com dinheiro público e que, infelizmente, sobreviveu apenas três números, a Piracema. Esta publicação era trimestral e foi editada pela Funarte entre 1993 e 1994 enquanto o poeta Ferreira Gullar presidia o órgão. A Gesto nasce como que para vingar a morte prematura da Piracema. As duas são volumosas, a ponto de ter lombada. Têm em comum a diagramação arrojada, o uso inteligente dos recursos visuais e o privilégio absoluto do texto. Não à toa Piracema era trimestral e a recém-nascida Gesto sairá de seis em seis meses. O material jornalístico está lá, mas não é o prato principal da revista. Ele está, por exemplo, na reportagem de Isadora Andrade sobre a criação de um Centro Coreográfico no Rio de Janeiro, cuja inauguração deverá ser feita em julho de 2003. Também bancado pela Secretaria Municipal de Cultura, o centro virá somar-se a uma série de iniciativas do poder público carioca em favor da dança. Tais como o Panorama RioArte de Dança e o Circuito Carioca de Dança. O primeiro já existe há 11 anos e está perto de dar à cidade o status de parada obrigatória da dança contemporânea mundial. Gesto é fruto deste ambiente. Mas a revista lança o foco de seus temas para além da dança, ou melhor, para aquilo que pode produzir um entendimento melhor sobre a dança contemporânea. É essa acertada opção editorial que levou a editora Luciana Hidalgo a produzir um primeiro número com colaborações portentosas. Alguns nomes são a professora da New York University Leslie Satin, o fotógrafo esloveno (e cego) Evgen Bavcar, a antropóloga Mirian Goldenberg e a crítica de dança Helena Katz. Leslie defende que a dança contemporânea tem que se fundamentar na palavra falada. Evgen Bavcar mostra um ensaio fotográfico nada realista e um texto em que defende que o corpo dos deficientes físicos é o único livre do mercado de signos que hoje oprime a sociedade. Mirian Goldenberg escreve um corajoso ensaio para afirmar que a mulher carioca sofre psicologicamente com os atuais padrões de beleza feminina e a busca pelo ?corpo perfeito?, exibido como troféu nas praias da cidade. Helena Katz, por sua vez, analisa a transformação do corpo em uma mídia, sobre a qual inscrevem-se sinais e significados. Esta é a cara de Gesto. Com uma tiragem de apenas 2 mil exemplares, mas custando nada mais do que R$ 5, o primeiro número da revista circula só em algumas livrarias do Rio. Apesar disso, pode-se pedir um exemplar de Gesto por e-mail, no endereço ccoreograficorio@uol.com.br.

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