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Dança com lobos

Estrela do piano fala sobre Brahms, Beethoven e da reserva que criou para os animais

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2013 | 02h09

Teimosia - e a capacidade de viver sem saber o que se quer fazer em seguida. Assim a francesa Hélène Grimaud define o que lhe permitiu construir uma carreira de exceção no cenário da música internacional. Aos 44 anos, ela não é apenas uma das mais requisitadas pianistas da atualidade, como também se dedica à escrita e a uma reserva de lobos criada e mantida por ela nos Estados Unidos. Grimaud desembarcou esta semana no Brasil. De amanhã a sábado, toca com a Osesp o Concerto nº 5 de Beethoven, mesma peça com que se apresenta ao lado da Sinfônica da Bahia, no dia 14, e da Sinfônica Brasileira, no dia 19. No final da tarde de ontem, após ensaio na Sala São Paulo, ela conversou com a reportagem do Estado.

Beethoven é autor de obras às quais se costuma dar significados extramusicais, caso do Concerto nº 5, chamado de Imperador. Como lidar com isso?

É um equilíbrio interessante. É preciso respeitar o texto musical, ele diz muitas coisas às quais nem sempre prestamos atenção. Há contrastes de dinâmicas, fraseados que têm um significado musical, não estão ali por acaso. Se Beethoven escreveu, há uma razão. E no caso dele, é preciso prestar atenção ao fato de que esta peça foi escrita dez, doze anos antes do surgimento do piano moderno, portante é preciso prestar atenção no contexto da época ao olhar a partitura, para entender como lidar com o som.

Você acaba de gravar os concertos de Brahms. Como definiria o modo como ele e Beethoven escreveram para o piano?

Há uma conexão entre eles. Brahms pertence à mesma linhagem de Beethoven e Bach. E ambos eram pianistas, o que faz diferença. Talvez por isso não existam hoje autores que escrevam tão bem para piano, pois faz diferença conhecer o instrumento e suas possibilidades. E há também algo muito saudável na escrita deles, por mais que isso possa soar sem sentido - uma elegância nas linhas, uma preocupação com o elemento rítmico, ainda que seja necessário saber cantar e respirar com a música deles.

Seu repertório vai de Bach aos autores do século 20. Essa diversidade sempre existiu ou foi algo apreendido ao longo da carreira?

Ela sempre foi clara para mim. Há alguns autores que adoro, Brahms, Beethoven, Rachmaninoff, Liszt, Schumann. Mas eu soube desde o início que não tocaria toda a obra de um determinado compositor. E isso é uma bênção e uma maldição: não há tempo de tocar tudo! Você está sempre dividida. Por isso, busco um espectro mais eclético de obras.

Você parece se preocupar com o diálogo entre obras.

É curioso como uma peça, quando colocada ao lado de outra, dá a ela nova dimensão. O programa de um recital pode ser uma jornada e, ao mesmo tempo, revelar ligações. Pode ser por meio de uma mesma tonalidade, ou pela dramaturgia das peças, a maneira como contam uma história.

Você faz bastante música de câmara e tem dois livros lançados. Como a diversidade de interesses influencia a pianista?

Um aspecto mexe com o outro e todos me enriquecem, me dão sensações, emoções, uma percepção diferente que posso usar artisticamente. Para compositores, escritores, poetas artistas plásticos, a natureza sempre foi inspiração. Meu papel como intérprete não é o mesmo do de um criador, é bem menos importante, mas para mim a natureza também proporciona a sensação de algo maior e isso me inspira.

Você criou e cuida de uma reserva e de uma fundação dedicadas à preservação de lobos. Como surgiu este interesse?

O interesse pelos animais foi uma obsessão da minha infância. E o fascínio por uma loba que conheci na juventude me levou a querer compreender e descobrir mais sobre estes animais. Entendi que precisava fazer algo por eles, seria uma maneira melhor de passar pela vida. Daí surgiu o Wolf Center, em que os lobos funcionam como embaixadores da espécie, afinal, é preciso conhecê-los para que nasça uma conexão e o desejo de fazer algo por eles.

O mercado cria rótulos para artistas na tentativa de vendê-los melhor. Houve algum momento em que você se sentiu levada em alguma direção que a desagradava? É difícil lidar com isso?

Não pareceu difícil. Talvez por teimosia e por uma contradição: nunca saber o que se quer fazer em seguida, não fazer planos, e ao mesmo tempo acreditar na sua intuição. Quando se faz planos, é preciso se adequar para realizá-los. A falta de direção mantém a intuição viva.

Você conhece a obra de compositores e pianistas brasileiros?

Eu amo Nelson Freire, ele é um dos meus artistas preferidos. Como pianista, ele tem um maneira especial de tocar, é um tipo de musico que está em extinção, extremamente musical, distinto. Há uma poesia, uma sensibilidade, uma consciência do som. E sem que desapareça o modo natural como ele faz música.

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