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Dan Stulbach vive no palco um Deus que busca consolo na terapia

Na peça ‘Meu Deus!’, todos os personagens têm de lidar com seus fantasmas

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

15 de março de 2014 | 16h00

Misericordioso, justo, piedoso. Mas também vingativo. Dado a rompantes de ódio e caprichos inexplicáveis. Deus não está nada satisfeito. Está descontente com o homem. Imensamente decepcionado consigo próprio. Não sabe mais o que fazer. E, depois de muito relutar, resolveu partir para a terapia.

Em Meu Deus, espetáculo que Irene Ravache e Dan Stulbach protagonizam a partir do dia 28, tematiza-se esse improvável encontro. Sem aviso, uma analista recebe em seu consultório a visita inesperada do Criador. Ele relata não ter mais vontade de nada. Não se interessar por nada. Nem ter expectativas. O diagnóstico é certeiro: depressão.

Ainda que envolto em discussões filosóficas e amparado pela psicanálise, o texto da israelense Anat Gov não resvala em academicismos. "Ela não está falando de religião. Nem usa um tom didático. É uma discussão mais ampla", observa Irene Ravache, que interpreta a psicanalista Ana.

Montada pela primeira vez no Brasil, a obra já mereceu montagens em outros países. Em Buenos Aires, tornou-se imenso sucesso. "Um dos segredos da peça talvez seja a união da discussão inteligente com a comédia", crê o diretor Elias Andreato.

Ao longo do espetáculo, mesmo quando Deus enfrenta seus maiores dilemas de consciência, a dramaturga não renega um olhar bem humorado às situações. A psicanalista não costuma perder a chance de ironizar as carências desse "senhor supremo". Ri da sua necessidade de amor e da sua vaidade desmedida. Satiriza as injustiças que Ele cometeu e os horrores descritos no Velho Testamento.

"É com muita leveza que a autora conduz essa discussão", aponta Stulbach, a quem coube o papel de Deus. "A peça tem muito desse humor judaico, que consiste quase sempre em rir de si próprio." O tom cômico ganha significado extra se considerarmos o contexto em que Meu Deus foi escrita. À época, Anat Gov enfrentava um tratamento de câncer e morreu menos de um anos após a estreia da peça.

No universo masculino de divindades que temos delineado no imaginário, espaço onde imperam Deus, Jesus e seus apóstolos, a dramaturga Anat Gov introduz uma mulher como elemento dissonante e desorganizador. No espetáculo Meu Deus!, cabe a uma psicanalista (Irene Ravache) amparar o Criador em apuros. Mas, também, levá-lo a repensar suas atitudes.

Não sabemos ao certo por que Ana foi a escolhida para a sagrada e inglória tarefa de analisar Deus. "Ela também não sabe", observa Irene. Ao longo da obra, porém, o público recebe algumas pistas que ajudam a desvendar os motivos da predileção divina.

Ela cuida majoritariamente de crianças. Possui um filho autista, que nunca conseguiu sequer chamá-la de mãe. Além disso, essa terapeuta não está entre suas maiores "fãs". Tampouco faz parte do seu séquito de bajuladores - termo utilizado pelo personagem de Dan Stulbach para referir-se aos devotos de fé cega. Ele, afinal, não está em busca da aceitação, mas do enfrentamento.

Desde a infância essa psicanalista deixa evidente a sua desconfiança em relação a Deus. Não seria exato falar em ateísmo. Mas, já que ela o cobra e o questiona incessantemente, talvez essa seja uma relação que careça de ajustes. Durante essa sessão de terapia acompanhada pela plateia, o encontro entre os dois atravessa diversos momentos. De desconfiança, rejeição, compreensão e reconhecimento.

Quando um homem lhe surge dizendo-se Deus, a primeira reação de Ana é de descrença. Talvez seja um louco, com rasgos de onipotência. "Você não é a primeira pessoa com esse tipo de ... de ... problema", ela arrisca a lhe dizer. "Isso é muito comum hoje em dia. … muita pressão. Todo mundo quer se dar bem…"

Como ele parece saber tudo sobre a sua vida, a analista também cogita a possibilidade de tratar-se de um espião. Quem sabe um funcionário do Mossad (o serviço secreto israelense)? Mas esse homem que pede para ser chamado de D. conhece coisas que ela nunca revelou a ninguém. Suas angústias mais secretas, pensamento que ela nunca ousou dividir com ninguém. Depois de relutar, ela termina por se render e segue ao seu lado nessa jornada de autoconhecimento. "É um questionamento de coisas que já estão estabelecidas, diante de alguém que irá instigá-lo", diz a atriz.

Mas qual será, afinal, a crise desse Deus? "A crise de Deus é a crise da humanidade. É a crise do homem contemporâneo. As pessoas acabam se reconhecendo em muitas das dúvidas e das questões dele. Claro que existem problemas que são particulares Dele, que só Deus pode ter. Mas há muitos conflitos da sociedade, que poderiam estar nas páginas de qualquer jornal."

Interpretar o Todo Poderoso não é um tarefa trivial. "Não é sempre que se tem a oportunidade de viver Deus", ressalva Stulbach. Por isso mesmo, a escolha de um ator para o papel precisou levar em conta alguns quesitos. "A escolha do Dan para fazer Deus talvez misture uma série de fatores", considera Irene. "Ele consegue se diferenciar a cada trabalho e não tem nenhum rótulo que o identifique. Dependendo do intérprete, mesmo que seja um bom ator, você já o identifica com uma imagem imediatamente. Ao mesmo tempo, era preciso uma personalidade forte para esse papel."

Toda sessão de terapia costuma começar seguindo um mesmo script. O analista faz a pergunta: "O que te trouxe até aqui?". Em Meu Deus!, essas respostas vão surgindo gradativamente. "Até profissionalmente as coisas não vão bem para Ele. Afinal, a sua ‘obra’ não está dando muito certo", ironiza Irene Ravache. "Mas vamos ver que o problema é ainda maior."

Culpa. Para o diretor Elias Andreato, o que atormenta Deus é sua imensa carga de culpa. "Esse Deus tão cruel, tão ameaçador, mas que se sente tão abandonado, precisa tratar essa culpa. A psicanálise trabalha com as fraquezas do ser humano para chegar àquilo que é mais primário em nós: amar, se perdoar, perdoar o outro."

A estrutura proposta pela dramaturga israelense é simples. Adaptado do original por Jorge Schussheim e com versão brasileira de Célia Regina Forte, o título propõe um encontro com um espectador comum, sem reivindicar-lhe formação prévia sobre o tema no qual se está imerso. "Quando assistimos a algo e nos julgamos mais inteligentes do que aquilo que está em cena tendemos a rejeitar", opina Andreato. "Por outro lado, se é algo muito além da minha percepção, a tendência é me distanciar. A autora consegue manter a discussão em uma medida que é muito próxima a todos nós." À simplicidade da sua dramaturgia, Anat Gov alia o humor: trunfo maior da peça, segundo o encenador. "Através da brincadeira, é possível se entender de forma mais generosa. A comédia é, muitas vezes, considerada um gênero menor. Mas é aí que o público está mais disponível, menos armado, para encarar uma real reflexão."

Deus irá empreender a sua via-crúcis em busca de perdão. Mas Ana não sai indiferente da jornada. Ela também se deixará afetar pelo encontro. O sofrimento pode ser um meio de se entender, de crescer e viver melhor. Mas ela aprenderá que não é o único.

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