Dalton Trevisan faz contos a partir da dúvida

O novo livro de contos de Dalton Trevisan, Capitu Sou Eu, remete em seu título, a um só tempo, ao romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, e à síntese de Gustave Flaubert, autor de Madame Bovary - "Bovary c´est moi", "Bovary sou eu". Mas quem é Dalton Trevisan? Dalton Trevisan, nascido em 1925 e que talvez nunca venha a ser entrevistado, recluso em Curitiba, é o velho e estranho contista de sempre nessa nova obra, que não surpreende, mas também não decepciona. E que consegue, a partir de clichês, tensões programadas, bom humor e, ainda, muitas citações, contar as histórias mais simples com elegância e transformar as referências literárias sofisticadas em agressões que tiram o equilíbrio do leitor. Ninguém é ou ao menos parece honesto nos contos de Capitu Sou Eu. Todos jogam ou desejam parecer jogar. A mulher que não chora nem veste luto quando o marido caminhoneiro morre de mal súbito o faz porque realmente acredita que o companheiro matou a filha "de propósito" ou porque, como achava o caminhoneiro que não se via pai da menina, não tinha nele "o único homem"? A moça de A Gente se Vê, que abre a porta de casa para o narrador que encontrou no ônibus, depois de um longo tempo, é uma "matadora" ou simples caça do sujeito? Como Trevisan é econômico nas palavras, nas descrições e no desejo de ser "visto", nunca é possível confiar no que está escrito. Nesse sentido, o título do livro talvez não ficasse mal se fosse ?Bentinho Sou Eu?. Porque é Bentinho, o Otelo brasileiro, conforme definiu Helen Caldwell, o autor das suspeitas memórias que acusam Capitu, mas não lhe dão voz em nenhuma circunstância. O primeiro conto, que dá título ao livro, começa com a discussão em torno de Capitu. Discussão entre a professora, que a defende, e o aluno, que a ataca. Os dois vão se encontrar num clichê, ou seja, num dia de chuva. E ela ficará dependente (especialmente do ponto de vista sexual) dele. Quem manipula quem? Varia, também, do que o leitor acha do romance: é Capitu que trai Bentinho ou Bentinho que inventa a traição? Ao fim e ao cabo, ela acaba usando, ingênua e ironicamente, uma revista literária para tentar reconquistar o garoto.

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