Danny Moloshok/Reuters
Danny Moloshok/Reuters

Daft Punk reinventa noção de trilha sonora

O jogo mudou. The Game Has Changed é o título da oitava música da trilha sonora de Tron. A ameaça de que as regras se tornem subitamente movediças é parte essencial da música do Daft Punk, talvez o grupo de música eletrônica mais influente das últimas 2 décadas no planeta.

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2010 | 00h00

O duo francês é o responsável pela trilha da produção. Nada mais coerente: o filme que colocou o homem dentro de um mundo de contornos visuais só poderia ser musicado pelo grupo que abriu nossos ouvidos para a sonoridade eletrônica. Eles compuseram 22 temas para o filme, e é pouco provável que o filme seja melhor do que sua música.

Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo, que formam o Daft Punk, apresentam-se com capacetes pretos desde que criaram a banda em Paris, em 1993. Surgiram no meio de uma onda de progressive dance francesa, que teve como expoentes o Motorbass, o Air, Cassius e Dimitri from Paris.

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Já estiveram no Brasil, para o TIM Festival de 2006. Cresceram fascinados pelo mito do filme dos anos 1980 que antecipou o universo virtual e a cooptação da sensibilidade humana para dentro de um mundo de regras computadorizadas. Para executar os temas, o grupo contou com o apoio de uma orquestra com 85 músicos de Londres, e gravou com a orquestra nos estúdios Air Lyndhurst, maior da Grã-Bretanha.

"Nós sabíamos desde o começo que não iríamos fazer essa trilha com dois sintetizadores e uma drum machine", disse Thomas Bangalter. Portanto, é bom avisar de cara que não é um disco de carreira do Daft Punk, mas uma trilha para um filme de uma franquia da Disney que custou US$ 200 milhões. Ou seja: não dá para procurar no álbum aquele senso dance que fez a fama da banda em discos como Homework e Discovery. Nada disso.

Alguns críticos (não poucos) torceram o nariz. Viram ali apenas uma combinação matemática de trilheiros clássicos, como John Williams (da série Guerra nas Estrelas), Howard Shore (O Senhor dos Anéis) e Hans Zimmer (O Cavaleiro das Trevas). É justamente nessa disposição de jogar com os mesmos clichês do gênero que está o trunfo do Daft Punk. Enxertam na grandiloquência sinfônica dos épicos fílmicos seus fluidos de house music, como em Derezzed. Orquestras e sintetizadores, inércia robótica e espasmos vitais. A faixa The Game Has Changed foi comparada, na Rolling Stone americana, com uma música que escapuliu de algum disco do Radiohead. Muito apropriado.

O interessante da trilha do Daft Punk também é a remissão constante a um imaginário pop que inseminou a disco music, como Vangelis e Maurice Jarre. O futuro construído sobre as bases de um passado remoto.

Muitas das faixas, obviamente, não sobreviveriam num show do Daft Punk e nem mesmo viveriam fora d"água da tela grande por alguns minutos. Isso não é necessariamente ruim, porque a função de uma trilha, muitas vezes, é ser invisível. É o caso, por exemplo, de Adagio for Tron. Obviamente, como quase toda música moderna eletrônica, há tributo à velha escola do Kraftwerk, que comparece em End of Line. Já os velhos westerns, que celebrizaram Ennio Morricone, têm seu momento em Rectifier. Uma das melhores faixas é Outlands, com sua cavalgada de cordas. Os que argumentam que o Daft Punk não foi, em Tron, muito além do que já foi feito em Avatar (a música era de James Horner), é bom notar que há semelhança entre os dois filmes. São duas viagens interiores.

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