Dá vontade de voltar no tempo e entrar nos seus filmes

Crítica: Mariana Ximenes

MARIANA XIMENES É ATRIZ DE CINEMA, TEATRO, TV, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2012 | 03h09

Apurei meu contato com Douglas Sirk por indicação do Guilherme Weber, meu diretor em Os Altruístas, de Nicky Silver, para buscar referências. Na peça, eu interpretava Sydney, atriz de novela à beira de um ataque de nervos que sustentava um grupo de pseudo-humanistas. Entre outros filmes, Gui me sugeriu ver Imitação da Vida, em que Lana Turner vive também uma atriz, Lora Meredith. Tive de ficar a tenta às camadas de interpretação durante a concepção da peça: momentos em que eu era mesmo a Sydney agindo e, em outros, a Sydney pegando emprestada a vida de Santa Teresa (personagem dela na novela), assim como Lora se esconde atrás do glamour e sucesso, deixando de lado a vida pessoal, às vezes misturando realidade e ficção.

É marcante quando Lora grita o nome da governanta quando esta morre. Câmara em close, e mesmo assim a expressão de dor é grandiosa. O close nos despe de nossas sensibilidades perante o público, um bom exemplo é assistir ao que essas atrizes já fizeram no cinema. Imitação da Vida foi tratado como melodrama simples, mas o filme que não se furta a apresentar o contexto racial, o contraponto entre ascensão profissional e vazio existencial, a mocinha imperfeita e suas fragilidades. Já atuei em alguns melodramas de TV, às vezes tive de ir fundo - nas emoções e na representação delas. E, nisso, me espelho muito no cinema americano, nas suas atrizes e no jeito que atuam. É preciso viver o sentimento proposto pelo autor sem pudor ou má caras: não interpretar e sim sentir. No cinema e na TV, temos a câmera que capta a alma do ator através do olhar, se você não tiver preenchido de subtexto e sentimento, ela denuncia!

Em minha carreira na TV, fui levada a reviver fases do cinema - acho que os autores sentiram quanto gosto da sétima arte! Na minha primeira aparição na TV, refaço a cena clássica de Carrie, do Brian de Palma, em que retomo a personagem de Sissy Spacek. Esse momento, mistura de suspense e melô, voltou em Chocolate com Pimenta quando tomo banho de tinta verde no meio de uma festa. Na mesma novela, revivi uma cena da Scarlett O'Hara em ...E o Vento Levou, quando ela brada que jamais sentirá fome de novo. Em A Favorita, citei corpórea e verbalmente a cena Acossado em que Jean Seberg vende jornais na Champs-Elysées. Revendo Palavras ao Vento, me deparei com uma frase da personagem de Dorothy Malone, que havia sido minha fala em Passione: "Um drinque pelos seus pensamentos", prova de que Silvio de Abreu conhece e ama os melodramas clássicos e faz deles fonte de inspiração. E por aí vai...

É gratificante ver um diretor valorizar tanto as atrizes como Sirk. Seus filmes são feitos para elas, por elas, em cima delas. Que personagem maravilhosa a da mulher de meia-idade que se apaixona pelo jardineiro em Tudo o Que o Céu Permite. Ela sofre pressão da sociedade, dá volta por cima e enfrenta todos para viver seu grande amor. É inspirador! Dá até vontade de voltar no tempo para tentar entrar em algum dos filmes - que venham os Sirk brasileiros do século 21... E, não posso me esquecer, a grande coincidência: nascemos no mesmo dia de abril.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.