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Humberto Werneck
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Dá samba

Não vou desdizer agora o que disse tão enfaticamente duas semanas atrás, quando registrei a má vontade de tantos críticos e acadêmicos em relação à crônica, esse palmo de prosa que, não importa se de boa ou nenhuma qualidade, para muitos deles nem sequer mereceria o status de gênero literário. Escrita para o jornal ou a revista, ela não passaria de modalidade jornalística – e foi para ilustrar esse preconceito que saquei umas aspas de Alceu Amoroso Lima, para quem uma crônica, posta em livro, seria “um passarinho afogado”.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2016 | 02h00

Não, repito, não vou me desdizer – mas posso ter deixado a impressão de que peguei para Cristo o respeitado ensaísta cristão, quando há outros que, também por escrito, torceram doutos narizes para a pobre da crônica. O poeta Lêdo Ivo, por exemplo, que, para reutilizar aqui a manjada maldade, a meu ver incorreu em ledo e ivo engano ao falar da crônica como reles “gênero anfíbio” que, “pertencendo simultaneamente ao jornalismo e à literatura, assegura notoriedade e garante o esquecimento”.

Esquecimento? A peremptória declaração do poeta foi feita, veja você, a propósito de ninguém menos que Otto Lara Resende, cuja produção como cronista, selecionada para o livro Bom Dia Para Nascer, já comprovou ter fôlego para atravessar os tempos.

Quero fazer justiça ao Dr. Alceu, caso não muito encontradiço de pessoa que envelheceu para a esquerda, substantivo aqui utilizado, fique claro, menos no sentido de orientação política do que no de postura não conservadora. Mas vale para política também: o Dr. Alceu, que nos anos 1930 e 40 pendeu para o direitismo integralista, terminou seus dias como decidido combatente da ditadura instaurada pelo golpe de 64. Foi ele quem criou a expressão “terrorismo cultural” para qualificar barbaridades perpetradas nesse terreno pelo regime militar.

Numa conversa comprida e gostosa que tivemos em 1978, na casa de uma filha dele, em Campinas, encontrei um espírito aberto e tolerante. O Dr. Alceu já era visto assim por ocasião de nosso primeiro encontro, 12 anos antes, quando, em Belo Horizonte, recebi de suas mãos o prêmio de um concurso literário. Amaciado pelo tempo, não tenho dúvida de que ele teria topado entregar o cheque ainda que o concurso fosse, não de contos, mas de crônicas... Tenho a impressão de que, ao falar de coletâneas do gênero, já não recorreria àquela infeliz imagem ornitológico-mortuária. Mais: talvez estendesse sua tolerância a uma produção cronística que, embora sem atingir as culminâncias de Machado, Bilac, Drummond, Rubem Braga, Fernando Sabino ou Paulo Mendes Campos, desse mostras de durabilidade quando, garimpada em velhos jornais e revistas, fosse posta em livro.

Eis um trabalho, essa garimpagem, que convém fazer, pois há nas hemerotecas bem mais do que cascalho jornalístico. Três décadas atrás, Eduardo Frieiro exumou da coleção do diário oficial de Minas as 54 deliciosas crônicas nas quais o português Alfredo Camarate registrou o início da construção de Belo Horizonte, no ano de 1894. Dessa cata resultou um número especial da Revista do Arquivo Público Mineiro, hoje tão esquecido quanto aqueles velhos jornais que só as traças frequentam. Mereceria mais a prosa boa e divertida do Camarate, mereceria estar em livro. Pode não ser alta literatura, mas, 122 anos depois, não perdeu o viço, a capacidade de seduzir leitores – para não falar no extraordinário valor documental que tem.

Dar sobrevida a escritos ainda pulsantes foi o que fez, recentemente, o jornalista e escritor Celso de Campos Jr., ao editar um volume caprichado, com capa dura e farta ilustração, sob o título Recado de uma Garoa Usada, para o qual selecionou 79 crônicas de Osvaldo Moles. Não se avexe se nunca ouviu falar dessa multitalentosa figura que em sua curta existência (1913-1967) se esparramou por um punhado de atividades. Foi jornalista, produtor de rádio e TV, roteirista de cinema, publicitário, compositor.

Hoje poucos se lembram de Osvaldo Moles, o cronista de Piquenique Classe C, esgotado há mais de meio século. Como compositor – lembra Celso num perfil biográfico que acompanha Recado de uma Garoa Usada –, foi parceiro de Adoniran Barbosa. Mais que isso: foi Osvaldo Moles quem “inventou” Adoniran, ao converter em radioator de sucesso o cantor frustrado que fazia bicos na discoteca da Rádio Record. Quem conta é o mesmo Celso, que escreveu também uma biografia de Adoniran. A companheiragem musical deu samba, 8 sambas, entre eles Tiro ao Álvaro, celebrizado na voz de Elis Regina.

Olha aí, você conhecia o Osvaldo Moles, e não sabia. Agora trate de conhecer o que ele fez na crônica, esse gênero que também dá samba.

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