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Da próxima vez, três pulinhos

Mesmo sem prestígio nas Alturas, vou acabar recorrendo a Longuinho, o santo achador

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

22 de outubro de 2019 | 03h00

Se eu não tivesse algum problema para levar ao analista (sim, me disseram que às vezes acontece, mas ali não era o caso), de repente teria aquele desabado sobre mim no instante em que saía para o consultório.

Você já viu, provavelmente já protagonizou o filme, na afobação de se mandar para a rua: cadê o raio da coisa? Descarga de adrenalina. E agora? O táxi a caminho, três minutos, dois minutos, um minuto – e onde estava, meu Deus, a bendita, a maldita carteira, com todos os cartões, os documentos, além de uns caraminguás, não muitos, nem por isso desprezíveis? 

No segundo seguinte, catapultado de um estado quase zen para uma quase histeria, felizmente sem testemunhas, me pus a estapear as coxas e as nádegas, mesmo já sabendo que naqueles bolsos a sumida não estava. Onde estaria, então? E tome alucinada via-sacra pelo apartamento, sacudindo lençóis, revirando papéis no escritório, vasculhando o cesto de roupa suja, até mesmo abrindo forno e geladeira – não exagero, pois a esta altura me conheço o suficiente para saber a que ponto pode me levar a falta de atenção. Nada – e o aplicativo do 99 avisando que o motorista esperava lá embaixo. O que faço? Cancelo a sessão de análise? Ou troco o táxi por uma ambulância e sigo, com a sirene ligada, rumo ao divã do analista?

No táxi, agora certo de que a vida não valia a pena, eu me recriminava: sabendo que os miolos já não andam grande coisa, por que não tive o cuidado de depositar a carteira, como sempre faço, no meu vide-poche? – a utilíssima bandejinha retangular de couro rijo, com nome francês e menos de um palmo de comprimento, no console da sala, onde a prudência recomenda ao desmemoriado esvaziar os bolsos ao entrar em casa. 

Passo por cima da sessão de análise e vou ao momento em que, tendo sido provisoriamente despachado por Lacan, me vem, no táxi, a impressão de estar, uma vez mais, sofrendo à toa, pois a carteira com certeza estava, como não pensei nisto antes?, na gaveta que abri para pescar a camiseta.

Evidentemente não estava – e eis-me agora, ao telefone, cuidando de bloquear os cartões de crédito. 

De súbito, uma outra ligação se intromete, é minha filha, e aflito digo que falaremos daqui a pouco, pois estou numa emergência – e por pouco não lhe dou a chance de informar, peraí, pai!, que alguém ligou para comunicar que achou minha carteira. 

Na euforia, tão intensa quanto a nervosia do instante anterior, o beijo que era para a filha acaba indo para a atendente do banco, e segundos depois estou na linha com o Reginaldo, que ontem à noite me trouxe do bar ao lar, não exatamente alcoolizado, porém, mesmo sem o aditivo, tonto o bastante para ter deixado cair no chão do carro a carteira com os documentos, os cartões, o dinheiro – e também, útil pela primeira vez, um cartãozinho plastificado em que tive, faz tempo, a ideia não necessariamente geriátrica de anotar nomes e telefones de familiares e amigos a serem avisados em caso de emergência. (Pelo tamanho & tortuosidade da frase, dá para sentir o que foi a viagem na montanha-russa das emoções.) 

Sorte minha, não apenas ter sido transportado por pessoa correta como o Reginaldo Silveira Lima, condutor do Ford Ka placas QNJ 3244, a quem aqui agradeço e homenageio, como também ter ele embarcado, na sequência, alguém que tampouco se apropriou dos meus pertences. Ao custo final de meia dúzia de novos cabelos brancos (mais alguns sufocos e todos o serão), o meu desastre teve happy end, com o Reginaldo, à minha porta, insistindo para que eu conferisse o conteúdo da carteira, e só a custo aceitando a gratificação que lhe estendi. 

Um vide-poche apenas, sei agora, será pouco para doravante acomodar chaveiro, carteira, relógio, anel, óculos de sol e o que mais traga eu da rua. Na verdade, o saldo do episódio recomendaria a aquisição de outro vide-poche, esse grandão, a ser instalado junto à porta de entrada, no qual o dono da casa não esquecesse de depositar, não objetos, mas sua própria carcaça.

Ainda não foi desta vez que precisei recorrer aos serviços de São Longuinho, santo homem cuja especialidade consiste em promover o reencontro de alguém com algo que tenha perdido. Nas dificuldades cada vez maiores que enfrento para localizar o que vou largando pelos cantos, reluto em dar os três pulinhos propiciatórios, como fazem os devotos de São Longuinho – e não apenas para não comprometer o sossego do jovem casal do andar de baixo. Meu prestígio nas Alturas, bem sei, é nenhum. Quem mandou, ó incréu? Deus pode até não existir, mas é justo. Mas quem sabe da próxima vez? Se me lembrar, naturalmente.

Ou quem sabe ressuscito um ritual da meninice? Quando se perdia alguma coisa, um carrinho, digamos, havia o recurso laico de atar um peso na ponta de um barbante, e, sustentando-o no ar, repetir “de mim para o carrinho, de mim para o carrinho”, para que o improvisado pêndulo indicasse a direção do objeto perdido. Sabe que às vezes funcionava? 

De São Longuinho e seus poderes, só fui ouvir falar pela primeira vez numa visita que fiz ao Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga, Portugal, onde, num canto de jardim, há uma estátua do santo. Contaram-me que não é raro ver ali fiéis, quase sempre do sexo feminino, a rodar em torno da imagem, na esperança de que São Longuinho lhes providencie um par. O que faria dele, além de concorrente do casamenteiro Santo Antônio, um especialista em achar até mesmo coisa que não foi perdida.

 

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