Maria Emelianova / Flickr Fide
Maria Emelianova / Flickr Fide

Da polêmica na Rússia ao 'boom' no Brasil; xadrez cresce na quarentena

Jogadores profissionais e, principalmente, amadores ampliaram o engajamento com o xadrez que surge como opção aos que buscam distrações e exercícios mentais para o período de confinamento

Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2020 | 10h00


BRASÍLIA - Enquanto a pandemia paralisava competições e interrompia treinamentos de atletas de ponta dos esportes mais populares, no xadrez a consequência era inversa. A quarentena contribuiu para uma explosão do número de adeptos dos tabuleiros, no Brasil e no mundo. A modalidade se adaptou à internet e os maiores enxadristas do planeta continuam em plena atividade, online, em competições e eventos que rendem patrocínios e premiações invejáveis.

À primeira mirada, soa ridículo associar a esporte a simples movimentação de peões, torres e cavalos. Mas acredite, os argumentos são bons. Um jogador profissional se dedica desde as tenras idades, pode perder peso competindo, administra níveis elevados de estresse e se submete a rotinas de treinamento de até oito horas diárias. A preparação precisa ser mental e física. O vigor corporal ajuda a resistir a batalhas que se alongam por mais de seis horas.

Com a pandemia já declarada, em meados de março, a Fide, a “Fifa do xadrez”, ignorou apelos e manteve, em Ecaterimburgo, uma das mais célebres competições da modalidade. A foto da cerimônia de abertura do Torneio de Candidatos causou perplexidade e foi removida dos canais oficiais. Mostrava um teatro lotado por mais de 4 mil pessoas que foram aplaudir apresentações de artistas russos, entre os quais bailarinos do Bolshoi, enquanto o mundo começava a contar mortos por um vírus que passou a assombrar a humanidade. 



Eram só oito candidatos, de cinco países. Mas cada um anda com entourages completas e atraem um exército de jornalistas especializados, comentaristas e fãs. Os jogos só foram suspensos depois que o governo russo decidiu fechar o espaço aéreo como medida sanitária. Em disputa, prêmios que, ao todo, somavam 500 mil euros e o direito de desafiar o campeão mundial, Magnus Carlsen, em 2021. Aos 29 anos, o norueguês é um astro e um dos melhores de todos os tempos. 

De volta aos seus respectivos países, os jogadores se concentram em torneios virtuais paralelos que oferecem até US$ 1 milhão em prêmios. No Brasil, os profissionais e, principalmente, os amadores seguiram pelo mesmo caminho e ampliaram o engajamento com o esporte que surge como opção aos que buscam distrações e exercícios mentais para o período de confinamento.

Em uma das principais plataformas de xadrez online, a participação brasileira quase dobrou na quarentena. Segundo dados disponibilizados ao Estadão pelo chess.com, brasileiros jogaram 9.026.448 partidas nos meses de março, abril, maio e junho, contra 5.314.628 no mesmo período de 2019. O crescimento não se deu apenas entre os aficcionados de longa data. O cadastro de novos usuários passou de 24 mil por mês, em média, para 53 mil. 



A procura por aulas e treinamentos profissionais acompanha a tendência, dizem Grandes Mestres. O título vitalício é concedido pela Fide a jogadores que atingem um nível extremamente elevado e só 14 brasileiros o detêm. Sete vezes campeão brasileiro, o GM Rafael Leitão, 40, é o número 1 do ranking nacional.

“Começou uma certa explosão por causa do debate sobre o Torneio de Candidatos durante a pandemia e, com tudo travado, houve uma explosão no interesse em xadrez. Pude notar na minha academia. Era visível que tinha mais gente aparecendo para as aulas ao vivo”, observa o maranhense.

No xadrez clássico, os jogadores ficam sentados à mesa, próximos, e o aperto de mão funciona como uma espécie de apito inicial. No online, cada um joga confortavelmente em seu lar. O “home office” tem seus contras, porém. Não dá para esboçar reações e o duelo psicológico fica praticamente anulado. A conexão de internet com oscilação se torna uma variável a ser considerada e um grande dilema é o risco de “doping”, quando um jogador trapaceia com programas que apontam os melhores lances. 

“O ‘doping’ é muito perigoso e qualquer pessoa tem acesso a ele. A dificuldade das grandes plataformas é como popularizar a modalidade sem que haja fraude”, destacou Leitão. 

Por essas e outras, é inviável que as partidas clássicas de campeonatos mundiais, disputadas por horas a fio, sejam transferidas para o mundo virtual. O jogo online tem o caráter menos formal. Em muitos casos, recreativo. “Jogar de casa dá alguns confortos, sem dúvida, mas quando a gente fala de um atividade profissional mesmo, de resultado, traz também enormes dificuldades”, disse.



O GM André Diamant, 30, é outro que atesta a explosão do interesse por aulas. Treinador da seleção olímpica, ele organiza os torneios oficiais virtuais da Confederação Brasileira de Xadrez. 

 “Os torneios nacionais que aconteceram até o momento foram um sucesso, sempre com recordes de participação dos jogadores a cada edição”, comentou. “As principais competições vão continuar sendo presenciais, mas não podemos deixar de notar que não só no xadrez, mas nas demais áreas, muita coisa será reinventada”.

Na capital federal, o Brasília Clube de Xadrez (BCX), no Plano Piloto, está fechado desde o início de março e não tem previsão de reabertura. Para a maioria não tem sido um problema. “Ainda tem uns saudosistas que preferem presencial, mas é um grupo pequeno. Muita gente joga online. Neste momento, enquanto converso com você estou jogando uma partida”, resumiu o presidente do BCX, Raimundo Félix.

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