Plinio Santos/Estadão - 10/1979
Plinio Santos/Estadão - 10/1979

Dá o Play | 'Praia dos Ossos'

Ideia do podcast não é apenas recontar a história do feminicídio de Ângela Diniz, mas jogar luzes sobre as transformações do Brasil passou nos anos que se seguiram ao assassinato

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

29 de setembro de 2020 | 03h00

Durante a quarentena imposta pelo coronavírus, o podcast se consolida no Brasil com números e novas produções, mais interessantes e mais bem produzidas do que nunca – várias delas você conheceu neste espaço e em outros que os jornais e sites passaram, também, a se dedicar sobre a produção nacional do formato. Uma das novidades mais recentes é o podcast Praia dos Ossos, da Rádio Novelo, uma das mais destacadas produtoras de podcasts do Brasil, criada em 2019, e responsável por outros programas em parcerias, como o Foro de Teresina.

Praia dos Ossos conta a história do assassinato de Ângela Diniz (1944-1976), um feminicídio que ganhou as páginas dos jornais e as reportagens de TV e rádio a partir do dia 30 de janeiro de 1976. Numa história que aos olhos contemporâneos pode parecer anacrônica – mas infelizmente não é –, a estratégia dos advogados de defesa de Doca Street (Raul Fernando do Amaral Street, herdeiro de uma família quatrocentona), assassino confesso, partiu do antiquíssimo preceito da “legítima defesa da honra”, uma lenda jurídica utilizada pela ótica machista e elitista das sociedades desde priscas eras.

Segundo a produtora, a ideia do podcast – um programa narrativo, documental, em oito episódios, três dos quais já disponíveis – não é apenas recontar a história, mas sim jogar luz sobre as transformações por que o Brasil passou nos anos que se seguiram ao assassinato. Doca foi julgado uma primeira vez em 1979, na qual um ex-ministro do STF, Evandro Lins e Silva, defendeu o réu atacando a vítima – segundo ele, uma “Vênus lasciva” que não foi assassinada, mas “queria morrer”. 

O primeiro episódio fala sobre a noite do crime. Além de consultar amigos e recuperar notícias dos jornais da época – oferecendo texturas profissionais de som, roteiro apurado e apresentação envolvida de Branca Vianna, fundadora da Novelo – o podcast entrevista a única testemunha ainda viva do crime, a copeira Ivanira Gonçalves de Souza, que ajuda a reconstituir a cena final. O livro Mea Culpa – O Depoimento que Rompe 30 Anos de Silêncio, publicado por Doca Street em 2006, também é citado. Uma charge de Henfil no Pasquim, mencionada no programa, resume o que aconteceu nos meses seguintes: “Estão quase conseguindo provar: Ângela matou Doca”.

No final do episódio, Vianna revela um motivo pessoal, surgido durante a pesquisa, para a produção do podcast, em marcha desde janeiro de 2019: sua mãe assinou na época um manifesto pedindo justiça para a socialite. As pontas se amarram.

O podcast teve pesquisa de Flora Thomson-DeVeaux, tem como diretora criativa Paula Scarpin, é montado por Laís Lifschitz, e escrito em parceria com os roteiristas Aurélio de Aragão e Rafael Spínola, além de uma extensa equipe de som.

Veja o trailer do Podcast Praia dos Ossos:

*GUILHERME SOBOTA É JORNALISTA ESPECIALIZADO EM COBERTURA CULTURAL NO ‘ESTADÃO’

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