Dá o Play | A interpretação: 'Dissect'

Dá o Play | A interpretação: 'Dissect'

Podcast 'Dissect' usa métodos de análise da música clássica para mergulhar de cabeça na obra de artistas relevantes da atualidade, como Kendrick Lamar e Frank Ocean

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

28 de abril de 2020 | 03h00
Atualizado 19 de maio de 2020 | 15h25

Num famoso texto de 1964, a escritora americana Susan Sontag faz um virulento ataque à interpretação das obras de arte. Revisto pela própria anos mais tarde, o conceito “contra a interpretação” defendia a liberdade da fruição artística, constantemente colocada em risco pela hermenêutica (a leitura crítica) focada muito no “conteúdo” e pouco na “forma” – conceitos herdados da teoria grega da arte como representação, que mal e mal ainda rege a reflexão ocidental sobre as artes até hoje.

Claro que muita coisa mudou nesses 56 anos, inclusive na arte: surgiu, por exemplo, o hip-hop, gênero musical em que a confluência entre forma e conteúdo é tão vital a ponto de ser inconfundível. Os podcasts também apareceram. Mas não deixa de ser interessante trazer as reflexões de Sontag para um podcast em específico, o Dissect, apresentado, em inglês, pelo musicólogo americano Cole Cuchna.

Estudioso acadêmico de música clássica, o americano (hoje com 34 anos) se propôs a usar métodos analíticos do gênero de Mozart e Beethoven para outra forma de arte: o hip-hop. Ele começou a produzir então, de maneira independente e amadora em sua casa, o Dissect, que, como o nome sugere, mergulha de cabeça na obra de artistas relevantes da atualidade.

O podcast teve um salto consistente na sua segunda temporada, em que analisou o disco My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010), de Kanye West, e foi em seguida adquirido pelo Spotify. A empresa não me explicou por que o programa não está disponível na plataforma brasileira (mas o leitor/ouvinte o encontra em outros agregadores).

Numa nota pessoal, Dissect foi o motivo de eu começar a entender alguma coisa sobre hip-hop, e aqui entra em jogo outra questão, levantada pelo próprio Cuchna como o motivo para começar a produzir o programa: como homem branco de classe média, acessar a riqueza de detalhes de narrativas das obras de Kendrick Lamar e Tyler, The Creator (dois outros artistas com a obra analisada no programa) requer um tipo de escuta mais atenta – mais interpretativa. Porque com um tipo de nerdeza especialista que pode parecer chata (ou “reacionária”, nas palavras de Sontag usadas naquela ocasião), Cuchna investe muito tempo dissecando cada palavra, flow, rima, beat, nota, sequência de acordes, modulação, arranjo e melodia, sem deixar de lado uma extensiva exploração do contexto em que as obras foram lançadas.

Com cinco temporadas no ar, Dissect pode ser uma bela porta de entrada para o gênero de maior relevância no cenário pop deste século, como também pode ser, como Sontag ataca, uma tentativa de domar a arte, e portanto limitá-la. Um debate fascinante.

Ouça o Dissect:

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