Da nostalgia ao lúdico

Era do manifesto político volta à Bienal de Veneza, mas sem a força de edições anteriores

ANTONIO GONÇALVES FILHO, ENVIADO ESPECIAL / VENEZA, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2013 | 02h11

O curador da 55ºBienal de Veneza, Massimiliano Gioni, admite que a mostra segue a lógica do gabinete de curiosidades barroco, que, no século 17, funcionava como um protomuseu, como também intuiu Auriti no século passado, ao abraçar a utopia de um edifício mental tão delirante como a enciclopédia de Diderot. Há de tudo em Veneza, dos desenhos feitos pelo psicanalista Carl Jung em seu célebre Livro Vermelho a uma curadoria do Nobel de Literatura J.M. Coetzee no pavilhão belga, passando por um outro projeto curatorial insólito, da fotógrafa norte-americana Cindy Sherman. Trata-se de juntar tantas maravilhas como os gabinetes barrocos e o que não falta em Veneza é o desejo de traçar uma correspondência analógica entre a arte do presente e a do passado, como será visto no pavilhão brasileiro (leia texto abaixo) a partir de sábado, quando será aberta a mostra italiana.

A Bienal de Veneza parece um tanto nostálgica dos velhos manifestos políticos do passado. Um exemplo disso é a participação do artista inglês Jeremy Deller (English Magic), o badalado prêmio Turner de 2004, que mostra na cidade obras nada surpreendentes, como caricaturas de velhas raposas da política inglesa e águias levando carros no bico, além de outros signos igualmente óbvios. Talvez como manifesto contra o consumismo contemporâneo e a crise econômica europeia, a obra do artista Stefanos Tsivopoulos (História Zero) no pavilhão grego seja até mais direta. Tsivopoulos filmou o sucateamento da Grécia pela (Des)União Europeia, mostrando como a crônica falta de dinheiro está afetando as relações interpessoais em seu país.

Deller também é um ativista político como Tsivopoulos. Organizou passeatas e filmou, a exemplo do grego, mas parece enfrentar uma crise de criatividade sem precedentes. Nada tão grave quanto Ai Weiwei, que já participou da Bienal de Veneza em 2008 com uma instalação feita de varas de bambu e cadeiras suspensas. Volta como uma estrela perseguida pelo regime comunista chinês, posando de Joseph Beuys oriental no complexo Zitelle e na igreja de San Antonin, local que escolheu para dialogar com a antiga arquitetura veneziana (no site specific S.A.C.R.E.D). Em Zitelle, dentro do projeto Zuecca, Ai Weiwei faz um repeteco e mostra de novo sua instalação Straight (2012), exibida em Washington, feita de barras de aço recuperadas de uma escola que caiu durante um terremoto na China, em 2008.

Contra o excesso de discursos políticos e a fadiga visual que causa ver Ai Weiwei e companhia, os portugueses apostam no lúdico. Pedro Cabrita Reis, um dos mais conhecidos contemporâneos de Portugal, mostra no salão nobre do Palazzo Falier o que restou de seu antigo ateliê, misturando desenhos com uma instalação feita de luzes fluorescentes, tubos de alumínio e cabos que sugerem outros desenhos no espaço. A mais nova sensação da arte portuguesa, Joana Vasconcelos, abre amanhã seu projeto Trafaria Praia, transferindo o pavilhão português para um barco que ficará circulando entre a estação do Vaporetto dos Giardini e a Punta della Dogana. Joana é conhecida por ter feito um lustre de tampões higiênicos que causou sensação aqui mesmo em Veneza. Um patchwork em azul e branco ajuda a desvendar a meta da artista: recriar um painel de azulejos pintados a mão por um artista do século 18 e mostrar Lisboa e Veneza como cidades que ajudaram a ampliar a visão europeia do mundo, especialmente durante o Renascimento.

E, por falar em Renascimento, a curiosidade da 55.ª edição da Bienal de Veneza é a presença do Vaticano entre as representações nacionais que participam pela primeira vez da mostra italiana. O Vaticano, que encomendou a Capela Sistina a Michelangelo e a Capela de Vence, na França, ao moderno Matisse, agora tenta estabelecer uma relação de patronato com os contemporâneos. O Vaticano juntou num mesmo pavilhão o fotógrafo checo Josef Koudelka, o grupo milanês Studio Azzurro e o artista Lawrence Carroll, não para criar arte litúrgica, mas para refletir sobre a relação entre arte e fé. Uma reação contra a politização da bienal italiana?

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