Da felicidade solar à desilusão noturna, chovem paixões

Astral. Felicidade. Jardim do Éden. É nesse clima primaveril, de bem estar, que os ouvidos, o corpo e os sentidos são tomados de início pelo ótimo álbum de estreia de Marcelo Jeneci, Feito pra Acabar. Escolhido por ele, astral é o termo que aparece escrito na coluna "gênero" quando se abre o link com as canções do CD no player do computador. A relação com o "pop florestal" de Tulipa faz sentido. São discos que têm um frescor de descobertas, com leveza e riqueza sonoras, simplicidade e fino acabamento.

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2010 | 00h00

Surpreendente e repleto de referências a cada faixa, Feito pra Acabar traça o ciclo de um dia, da luz solar da manhã à reflexão propícia para as altas horas. Pode ser também descrito como a arco da mudança das estações. Felicidade tem algo de Beatles via Lô Borges e Beto Guedes. Meio calipso meio hula-hula, Jardim do Éden mantém o astral. A temperatura sobe com os rocks veranistas Copo d"Água (combinando guitarra com sanfona na onda surf) e Café Com Leite de Rosas (em que brilham os metais do Funk Como le Gusta). Quarto de Dormir, com citação chique de Les Feuilles Mortes, é uma balada brega certeira - lembra os ídolos populares da pós-jovem guarda.

A vocação para hitmaker do compositor se confirma em Pra Sonhar, uma toada/guarânia só dele, em que os vocais de Jeneci com Laura Lavieri remetem a Cascatinha e Inhana. A reflexiva balada valseada Por Que Nós? já assinala a mudança de clima. Em seguida vem Dar-te-ei, brega iê-iê-iê amorosa, digna dos melhores momentos de Roberto e Erasmo Carlos. Apaixonante. Roberto deveria mesmo cantá-la, como sugere Jeneci nos shows. A balada melancólica Longe é solidão, inverno total. A interpretação de Laura a torna ainda mais triste que a de Arnaldo Antunes no álbum Iê Iê Iê.

Com influência de Alceu Valença, despenca Tempestade Emocional, anunciando que "vai chover desilusão". O reverso da tormenta vem na explosiva Show de Estrelas, rock chacundum na linha de Trini Lopez. Sensacional. Com a guitarra fuzz de Edgard Scandurra, a psicodélica Pense Duas Vezes é explícita homenagem aos Mutantes. Outra balada reflexiva, Feito pra Acabar, com ares de erudição, leva ao fim inevitável. Daí é só recomeçar o ciclo e se banhar nessa extasiante chuva de paixões.

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