Da felicidade à loucura

Conto de Dostoievski sobre o fardo do amor inspira Domingos Oliveira

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2011 | 03h08

"Ele é muito melhor que todos os outros", sentencia Domingos Oliveira quando se põe a falar de Dostoievski. "Um observador da alma humana maior do que Shakespeare." A lista de elogios que o dramaturgo tece ao escritor é extensa. Eloquente. E dá conta da admiração que o fez debruçar-se sobre a obra do russo para erigir Um Coração Fraco.

A montagem, que abre hoje temporada no Sesc Santana, é um projeto antigo. No Natal de 1985, Domingos entregou a versão de presente para sua mulher, Priscilla Rozenbaum. Queria que ela, outra devota do autor de Crime e Castigo, assumisse a encenação. "Eu nunca quis dirigir. Por mais de 30 vezes fiz assistência de direção. Ainda continuo achando que é mais divertido atuar, mas agora achei que tinha chegado a hora", resume a atriz. "Outra coisa que me motivou foi a vontade de mostrar um Dostoievski. Acho importante fazer isso e me sentia capaz."

O resultado já foi visto no Rio, passou pelo Festival de Curitiba e chega agora a São Paulo. Com mais de 50 peças no currículo, Domingos Oliveira ainda traz poucas de suas produções à cidade. "Pena, porque sempre achei que em São Paulo me entendem melhor", observa ele.

Na cidade, o espetáculo será encenado com novo elenco. Caio Blat, que estava na primeira temporada, é substituído por Rodrigo Pandolfo. Caberá a ele encarnar o protagonista Vássia, um homem incapaz de lidar com a própria felicidade. Pobre, o frágil rapaz tem uma relação de cumplicidade com o amigo Arkaddi (Cadu Fávero) e se desestrutura ao encontrar o grande amor. Apaixonado por Lisanka (Ludmila Rosa), decide se casar. E, para viver ao lado deles, leva a sogra, o cunhado e Arkaddi.

Decidido a sustentar a casa, passa a trabalhar incansavelmente. Assume um compromisso que renderia um dinheiro extra. Mas não consegue concentrar-se em nada que não seja a própria ideia de amor. "Somos, em geral, amortecidos para os grandes sentimentos. O grande companheirismo, a grande lealdade, o grande amor. E tudo em Dostoievski é grande", diz Priscilla. "No caso dessa história, é possível pensar como a gente se boicota quanto à nossa felicidade. Sempre achando que vai dar errado, que a gente não merece."

Será por não se considerar merecedor desse afeto que Vássia vai enlouquecer. "Ele não consegue entender por que ele, logo ele, teria sido escolhido entre tantos para ser feliz", considera a diretora.

O processo que conduz um homem à loucura é tema mais do que explorado pela dramaturgia e a literatura. A genialidade de Dostoievski, considera Domingos Oliveira, está na forma como ele descreve a experiência. "A primeira vez que li esse conto eu chorei três dias. E até hoje, quando vejo a peça, ainda choro."

Transpor o universo de Dostoievski para a cena não é tarefa das mais triviais. Em cada uma de suas obras embaralham-se o traço do folhetim, os rompantes românticos, o olhar filosófico, as crises do indivíduo, as reflexões sobre fé, moral, ética.

À complexidade temática acresce-se ainda a extensão de cada uma das histórias. Pelos volumes portentosos, desfilam muitos personagens. Cada um deles representantes de um olhar particular, todos detentores de uma voz que dificilmente pode ser eliminada sem prejuízo para o resultado final.

Alguns alcançam maior ou menor sucesso na ingrata missão da adaptação. Recentemente, a diretora Cibele Forjaz conseguiu levar com brilho as mais de 700 páginas de O Idiota ao palco. O mesmo livro também ensejou outra bela versão do encenador lituano Eimuntas Nekrosius.

"Mas sempre escapa alguma coisa", decreta Domingos Oliveira, descrente da capacidade de capturar a essência do autor. "Isso porque não são os acontecimentos que importam. Nem sequer o que está sendo dito importa. Conta o caminho interno dos personagens", diz, lembrando que nem Albert Camus obteve êxito ao resolver adaptar o romancista russo.

Tal descrença do dramaturgo na fidelidade de uma transposição do livro para o palco ajuda a explicar por que escolheu uma criação tão curta de Dostoievski. "Também não tenho nenhuma paciência para essas peças com quatro ou cinco horas de duração. Essa convenção cinematográfica - de que a história tem entre 1h30 e 2h30 - não é à toa."

Para fazer jus ao conto em que se inspirou, o dramaturgo somou aos diálogos breves narrativas. A fim de elucidar determinadas motivações, os próprios personagens se encarregam de contar aquilo que escapa à encenação. Mas Domingos segue acreditando que existe algo que também não está ali. "Ele não escreve sobre a realidade. Escreve sobre o mistério."

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