Da dor de um adágio à imaginação melódica de uma sinfonia

Crítica:

O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2012 | 03h08

João Marcos Coelho

JJJJ ÓTIMO

JJJJ ÓTIMO

O repertório dos concertos da Osesp de quinta a sábado passados na Sala São Paulo ancorou-se em duas faces distintas do caráter elegíaco da música das primeiras décadas do século 20: de um lado, os russos Rachmaninov e Prokofiev; de outro, Samuel Barber e a música-símbolo do luto na vida americana. Apenas o primeiro concerto para violino de Prokofiev foge desta atmosfera. Mas a obra teve vida atribulada já antes da estreia. Escrita em 1917, às vésperas da Revolução de Outubro, foi engavetada e só conseguiu ser ouvida em concerto pela primeira vez cerca de seis anos depois, e em Paris. Contemporâneo da Sinfonia Clássica, é um primor de sutilezas, ritmos e desenhos melódicos ásperos, com direito a uma orquestração levíssima do acompanhamento, que dá ao violino a primazia de explorar todos os seus recursos, com destaque para a região aguda, trilos, arpejos, acordes. Hilary Hahn não é apenas uma grande violinista que ultrapassa obstáculos técnicos com naturalidade; possui uma musicalidade excepcional. O virtuosismo, Hahn demonstrou no Scherzo vivacíssimo; e a musicalidade, na cantilena do Moderato final. Um triunfo.

Mas a noite começou com o Adagio de Barber. E aí não há como evitar a lembrança das cerimônias fúnebres de dois presidentes norte-americanos, Roosevelt e Kennedy, ocasiões em que este movimento de quarteto de cordas arranjado para cordas em 1936 pelo compositor e estreado dois anos depois por Toscanini transformou-se em hino nacional da dor. A longa e pungente linha melódica de Barber passeia pelas cordas por 8 minutos. É mais do que música, é um símbolo. Ótima a execução da Osesp.

Na segunda parte, a segunda e mais longa (dura praticamente uma hora) e encorpada das três sinfonias de Rachmaninov completou o clima elegíaco. Ele a compôs em 1907, quando morava em Dresden, na Alemanha. Afastara-se da Rússia logo após dois fatos ambivalentes: o estrondoso sucesso do segundo concerto para piano e o fracasso retumbante de sua primeira sinfonia. No ambiente europeu, escreveu o terceiro concerto para piano e a segunda sinfonia. Mas suas afinidades estão, sobretudo, com a sexta sinfonia, a Patética, de Tchaikovsky. O uso cíclico do tema principal do primeiro movimento, que retorna e é retrabalhado até o final, tem tudo do tema do destino nas três últimas sinfonias de Tchaikovsky.

O tom elegíaco da Patética se repete nesta sinfonia que também faz da orquestração luxuriante - em vários momentos, as trompas, tuba, trombones e trompetes acompanham no registro grave as madeiras e cordas terçando lanças pelo domínio em longas e belíssimas melodias. A sinfonia foi acusada de prolixa. Injusto. Quando é interpretada com comprometimento e competência, como demonstrou Marin Alsop, impõe-se como uma das grandes sinfonias... do século 20. Epa, eu já ia me traindo. Ela é, com certeza, uma das grandes sinfonias do pós-romantismo do final do século 19. Rachmaninov jamais teve vontade de revolucionar tecnicamente a linguagem musical. Preferia dar livre curso a sua prodigiosa imaginação melódica, combinada com um domínio extraordinário da orquestração. Sua música é sensualmente bela e assim deve ser curtida. Ele não tem nenhuma culpa de sua linguagem, cacoetes e truques terem sido imitados à exaustão pelos compositores de trilhas sonoras de Hollywood.

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