Da caverna às passarelas parisienses

Um resumo dessa louca história, dos estilistas paleolíticos até Gaultier

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2010 | 00h00

A ausência de uma bibliografia crítica sobre a evolução da moda no mundo deixou aberto um campo enorme para o francês François Boucher, autor de História do Vestuário no Ocidente, que ganha agora no Brasil uma luxuosa edição de quase 500 páginas e mais de 1 mil ilustrações. Antes dele, alguns poucos se aventuraram a pesquisar como se desenvolveu o traje no Ocidente, mas nenhum foi tão longe. Impressiona o fôlego de Boucher, criador da Union Française des Arts du Costume. Da pré-história ao fim do século 20, ele e seus auxiliares - o principal sendo a historiadora de moda Yvonne Deslandres - exploram o que teria levado caçadores do paleolítico e agricultores do neolítico a curtir peles e costurá-las com nervos de animais, abrindo caminho para estilistas do futuro.

Curiosamente, Boucher afirma que os povos caçadores do paleolítico mais se enfeitavam do que se vestiam. Claro que o francês usou toda a sorte de registros (pinturas, esculturas, etc.), e não roupas, para chegar a essa conclusão, mas as imagens selecionadas por ele - como um afresco da caverna de Cogul conservado no Museu Arqueológico de Madri - provam que a mulher pré-histórica já usava saias e adereços. Âmbar, e não o diamante, era o melhor amigo das garotas primitivas. Vários adereços nessa resina fóssil hoje usada como gema foram encontrados em túmulos da Idade da Pedra, o que dá aos criadores dos Flintstones algum crédito em matéria de reconstituição histórica.

Desde o começo dessa odisseia, portanto, a roupa teve uma função não só de proteger o homem contra as intempéries como de seduzir ou inspirar medo no semelhante. Boucher conta como o vestuário corresponde e correspondeu, no passado, a um desejo de representação. Com a roupa pode-se ser animal, deus ou herói, lembra o ensaísta, relacionando o declínio dos impérios à expansão da moda trazida por seus conquistadores. Boucher cita como primeiro exemplo os sumérios, que andavam descalços e usavam roupas feitas de pele de cabra até que a Babilônia de Hamurabi ditasse a moda das roupas volumosas e ornamentadas.

Críticos de moda já existiam naquela época, mas esta é uma informação que Boucher toma emprestado da Bíblia para dizer que Elohim atirou peles aos pelados Adão e Eva, mas logo em seguida deu aos mesmos a capacidade de julgar seus modelitos e os de seus descendentes. Cristo, lembra o historiador, "fala dos penduricalhos espalhafatosos dos fariseus" e nem mesmo os vaidosos egípcios conseguiram resistir à sedução dos tecidos importados, provavelmente por algum comentário maldoso do estrangeiro sobre a indústria têxtil do faraó, que só usava o linho - leve, fresco, fácil de limpar. E foram esses mesmos tecelões estrangeiros que invadiram o mercado egípcio com tecidos plissados e frisados, mas não tão práticos. Enfim, moda exige um certo sacrifício.

Até os gregos fizeram concessões ao mundo dos bárbaros e assimilaram o olhar fashion dos invasores do centro asiático nas regiões litorâneas. O quíton masculino era apenas uma túnica retangular masculina feita de linho (e depois de lã) até que a evolução geral das colônias afetasse finalmente a Grécia continental. Os sacerdotes, vestidos com um quitonzinho básico, começaram a se perguntar se os deuses da Ásia Menor eram, afinal, maiores que os deles para usar todas aquelas roupas luxuosas. Foram os atores de teatro, no entanto, que deram o troco, dividindo o palco entre felizes e infelizes. Os primeiros usavam cores vivas e os últimos - isto é, os pessimistas e fugitivos - túnicas em tom cinza. Os reis e as rainhas das tragédias, então, vestiam túnicas com mangas até os pés, tendo as mulheres o direito de ostentar uma bela cauda em suas roupas ornamentadas.

A moda fica mais divertida quando Boucher chega aos romanos. Ele descobriu um mosaico, numa "villa" da siciliana Piazza Amerini, em que duas sirigaitas desfilam de tanga e sutiã sem o menor pudor - isso três séculos antes de Cristo. A imagem é hilariante como os anúncios de bronzeadores que infestam a TV. Boucher fala também dos protometrossexuais, garotos que passavam a manhã inteira se perfumando, pintando os olhos e frisando os cabelos com ferro quente para imitar o imperador Adriano. Este, para restaurar a virilidade da turma, acabou relançando a moda da barba.

De bons e maus exemplos, a história da moda está cheia. Ao contar como as Cruzadas descobriram as civilizações orientais impregnadas de luxo e ostentação, Boucher examina os traços deixados pelo requinte asiático e mostra que os cavaleiros resistiam ao demônio, mas não ao toque da seda, sendo capazes de renunciar a hábitos ancestrais pelas sírias e sarracenas que encontravam pelo caminho. Conclusão: até mesmo os pobres camponeses que se vestiam de calções, jaquetas grosseiras e perneiras de tecido, ao ver como voltavam os nobres peregrinos da Terra Santa, fizeram tudo para entrar na moda. Segundo Boucher, as Cruzadas ajudaram a atenuar as diferenças sociais. Feiras com produtos têxteis estrangeiros funcionaram a todo vapor. O movimento dos sem-roupa fez a festa.

Já no século 14, segundo Boucher, a grande novidade foi o abandono do traje longo e folgado para os homens. No século 15, os exemplos vão do corte de cabelo de Joana D"Arc - à escudela, descobrindo a nuca e as orelhas, considerado ridículo no processo contra a santa - às roupas sofisticadas do casal Arnolfini, retratado pelo pintor flamengo Jan Van Eyck em 1434. O comerciante usa uma huque de veludo forrada de pele sobre um gibão preto com punhos bordados a ouro e um chapéu de feltro tosado. A mulher não deixa por menos: seu vestido de lã guarnecido com arminho serve para mostrar que os burgueses de Bruges podiam prosperar e se vestir como qualquer aristocrata. A Europa caminhava sem saber para a democratização da moda.

No século 16, o continente enriquece com Colombo e Vasco da Gama, que estabeleceu a rota marítima das Índias, abrindo caminho para o algodão egípcio, a seda persa e os tecidos estampados indianos. Boucher arrisca dizer que a indústria têxtil foi a mais importante desse século no volume e variedade de produtos. A transformação política e o desenvolvimento das cidades fez surgir a figura do fidalgo, que desfilava em festas mitológicas e ostentava seu luxo em torneios e bailes. A Florença renascentista passa a ditar o modelo de corpo perfeito e Paris começa a abrir ateliês, até que a crise de 1557/59 leva à bancarrota milhares de prósperos consumidores de moda. Aristocratas arruinados são obrigados a se vestir como burgueses e o nível dos artesãos vai por água abaixo. A história se repetiria séculos depois com a Revolução Francesa. De lá para cá, Boucher apressa o passo e dá apenas rápidas pinceladas dos séculos 17 ao 20, até mesmo porque essa já é uma história mais conhecida e contada de outra forma, inclusive por sua colaboradora Yvonne Deslandres em seu livro Histoire de la Mode au XXe Siècle.

HISTÓRIA DO VESTUÁRIO

NO OCIDENTE

Autor: François Boucher. Tradutor: André Telles. Editora: Cosac Naify (480 páginas, R$ 165).

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