Da África para os quilombos de Minas

Projeto Guri recria o histórico álbum Canto dos Escravos, tendo o mar como mediador de culturas

LAURO LISBOA GARCIA , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

13 Julho 2012 | 03h13

Um disco histórico lançado há 30 anos ganha nova interpretação no Auditório Ibirapuera hoje. Canto dos Escravos - gravado com as vozes de Clementina de Jesus, Geraldo Filme e Tia Doca -, serviu de base para o novo musical do Projeto Guri, Calungá - O Mar Que Separa É o Mar Que Une, tendo o percussionista Naná Vasconcelos como convidado.

Depois de ser apresentado em Santos, Sorocaba e São José dos Campos, o espetáculo será gravado para um DVD e, embora diferente na temática e no formato, faz certas ligações com outros projetos de Naná envolvendo crianças e o mar. "Participei do filme Do Outro Lado da Água, na ilha Gorée, na costa do Senegal, que foi uma das saídas da grande travessia do Atlântico para as Américas. Então tem muita ligação com esse musical de que estou participando", observa Naná, idealizador do projeto Língua Mãe, que uniu crianças de Angola, Portugal e Brasil em 2010.

"Falo isso tudo para essas crianças, e elas usam a imaginação para atuar no espetáculo, que tem uma cena com barco e projeções do oceano", diz Naná. Nas oficinas, em parceria com um coreógrafo, ele fez as crianças "soltarem o corpo". "Elas já cantam certinho, mas feito coral, tudo durinho. Agora já conseguem cantar, dançar e tocar ao mesmo tempo."

Canto dos Escravos - com 14 cantos de trabalho em dialeto bantu - foi resultado de uma pesquisa linguística do filólogo mineiro Aires da Mata Machado Filho em 1929, em São João da Chapada, na cidade de Diamantina, que registrou 65 partituras no livro O Negro e o Garimpo em Minas Gerais. "A princípio, os cantos soaram estranhos para as crianças, mas a gente fez um trabalho de imersão no tema", diz o percussionista Chico Santana, gerente artístico do Projeto Guri. "O tema principal do espetáculo é a matriz cultural africana dentro da cultura brasileira. Começamos levando as crianças ao Museu Afro e depois fizemos outras atividades além dos ensaios, como oficinas de cantos de trabalho e de jongo."

Além disso, as 36 crianças (entre 8 e 19 anos) foram passar um fim de semana na praia, já que o eixo estético do espetáculo é o mar, ou calungá, no dialeto bantu. "No começo eles não entendiam bem o que estavam cantando, mas rapidamente abraçaram esse repertório, aprendemos seu significado", diz Santana. "Apesar de serem cantadas numa língua ser estranha, as melodias são muito populares, são canções que fazem parte da nossa identidade musical, que a gente conhece de alguma forma."

Os arranjos têm muitas músicas em coro e outras com destaque para solos. "Tem um menino com voz grave que remete muito à interpretação de Geraldo Filme na música Ilambá, embora o arranjo seja bem diferente. Tomamos o disco como ponto de partida, mas procuramos diversificar, com arranjos originais e outras músicas de Naná Vasconcelos, Villa-Lobos e Nenê de Vila Matilde."

A intenção é levar o projeto para fora do País. A produção negocia a possibilidade de uma participação do grupo no Ano do Brasil em Portugal, que começa no dia 7 de setembro e terá Naná entre as atrações neste semestre.

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