Cesar Martin Tovar/Divulgação
Cesar Martin Tovar/Divulgação

D2 aperta e acende a música de Bezerra

Fissurado nos sambas e sobretudo no estilo malandro de Bezerra da Silva (1927-2005) desde que era um moleque suburbano e ouvia seus LPs no toca-discos colocado no quintal de casa, Marcelo D2 tenta fazer com que os garotos de hoje descubram seu ídolo. "Quero que a molecada que vai aos meus shows e baixa minhas músicas na internet ouça esses sambas. Só tenho medo de acabar com a minha fama, porque quem tirava onda, quem era f... mesmo era o Bezerra!", brinca D2, feliz por realizar o sonho de reverenciar em CD o amigo, cujo rosto traz tatuado no antebraço esquerdo; aquele que o conduziu "no caminho em busca da batida perfeita" por quase uma década - o sambista, em fim de carreira, o rapper, apenas começando.

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

Essas classificações morrem quando se escuta Marcelo D2 Canta Bezerra da Silva. Como negar-lhe o carimbo de sambista agora? Com um time que já tocara com Bezerra, munido de cavaco, violão, reco-reco, pandeiro, surdo, agogô e que tais, D2 recriou o som de Bezerra como ele desejaria. Dessa vez, é samba à vera, livre dos beats e remixes de CDs anteriores. E D2, enfim, tenta fazer jus aos dois prêmios de melhor cantor que tem em casa.

Com o produtor, o sambista Leandro Sapucahy, escolheu sucessos que fizeram de Bezerra grande vendedor de discos nos anos 70 e 80, de autores que nunca ganharam fama. Caso de Se Não Fosse o Samba - verdadeira carta de intenções, que justificadamente abre o CD -, A Semente, Na Aba e Bicho Feroz. Malandragem Dá Um Tempo (Vou apertar/mas não vou acender agora), que tornou o velho malandro cult nos anos 90, quando resgatada pelo Barão Vermelho, foi gravada com propriedade agora.

 O sarcasmo e a incorreção política que foram marcas de Bezerra estão por toda parte. Na letra de Quem Usa Antena É Televisão, a da "nega que apanhava que nem um ladrão", e em Minha Sogra Parece Um Sapatão (fuma charuto, tem bigode e cabelo no peito). Também na figura do criminoso benfeitor da favela, presente nos "sambandidos" Meu Bom Juiz, Malandro Rife e Pega Eu.

Pernambucano, Bezerra veio e venceu no Rio do Morro do Cantagalo, depois de ralar na construção civil. D2, que bem antes do Planet Hemp e de fazer shows ao lado do ídolo viveu no Morro do Andaraí e trabalhou como camelô, sente-se à vontade em seu popularíssimo universo, tanto que se insere na letra de A Necessidade: "Artisticamente falando, Marcelo D2 tem muito valor/ Canta rap, toca o terror, fuma maconha e é compositor."

A amizade com Bezerra sempre lhe foi gratificante. D2 curtia ouvir seus conselhos, ainda que nem sempre precisasse deles. "Bezerra me dizia pra tomar muito cuidado na hora de assinar os contratos. Só que no rap é tudo business, é aquela coisa de querer ter o meu dinheiro no meu bolso, o carrão, a mulher gostosa. E ele, com 70 e poucos anos, não podia parar de trabalhar. Era meio triste ver o velhinho tendo que viajar numa van pra fazer shows."

SAMBA

MARCELO D2

Marcelo D2 canta Bezerra

EMI. Preço médio: R$ 29

OUÇA TAMBÉM

CADA MACACO NO SEU GALHO (CHO CHUA) Participação: Riachão Artista: Beth Carvalho. Álbum: Canta o Samba da Bahia Gravadora: EMI. Preço: R$ 20

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.