'D. Pedro foi julgado pelo povo do Rio', diz a historiadora Mary del Priore

Autora de 'A Carne e o Sangue' fala ao O Estado de S. Paulo

14 de abril de 2012 | 21h27

Como o adultério impactou a imagem pública de d. Pedro?

D. Pedro é julgado pelo povo do Rio de Janeiro, que é um quarto personagem do livro: as criaturas anônimas das ruas, que vão enxovalhá-lo, fazer sátiras, mostrá-lo montado pela amante. O número de caricaturas, folhetos, as tentativas de matar Domitila quando Leopoldina morre mostram isso. 

Esse descontentamento popular teve influência em sua decisão pela abdicação em favor de d. Pedro II?

Junto com o mau desempenho na Guerra Cisplatina, com a dissolução da Constituinte e com a situação de Portugal, isso acaba por colaborar para expulsá-lo do Brasil. Os povo começa a entender que aquela criatura não podia representá-lo, uma pessoa com tal fraqueza de espírito. 

A imagem dele que ficou para a história foi prejudicada por seu mau comportamento conjugal?

Essas figuras históricas dependem muito das releituras que os historiadores fazem dos documentos por elas deixados. Durante muito tempo, D. Pedro I foi representado como um rei pândego, sem limites. Depois que acabei esse livro, confesso que também fiquei desanimada com ele.

Muito já se falou sobre o romance de d. Pedro e Marquesa de Santos. Quanto à imperatriz Leopoldina, que descobertas você fez? 

Eu encontrei uma Leopoldina bem diferente daquela que a historiografia consagrou, a grande companheira de d. Pedro I na jornada da independência. Era uma mulher que tinha um compromisso muito forte com o que o pai dela (Francisco I) representava: o antigo regime, contra as revoluções liberais. Ela tergiversa entre apoiar um projeto que poderia garantir a coroa e o trono dos filhos e os princípios de absolutismo total. 

Você descreve a terrível melancolia que acometia a imperatriz austríaca no Brasil. Foi uma surpresa? 

Nunca essa voz de dor havia sido ouvida. É a voz de uma das figuras mais importantes do Império brasileiro, e que relata um abandono e uma miséria como raramente vi num personagem histórico. Ela não consegue construir relações com o Brasil. 

E Domitila era o oposto disso.

Era uma mulher que conseguia incorporar o papel de submissa, daquela que borda lenços, e, ao mesmo tempo, ser voluptuosa. Os jogos eróticos entre eles são muito importantes. D, Pedro I se derrama. Domitila vem de São Paulo, onde a maioria das casas é chefiada por mulheres. No Rio de Janeiro, usufruía do poder. As cortes europeias todas tiveram essas figuras que acabavam por ter influência junto aos monarcas. 

A morte de Leopoldina e a procura pela nova imperatriz esfria o relacionamento dos amantes. Por que o sangue, as obrigações do posto, se sobrepõe aos prazeres sexuais apenas neste momento?

Na sua condição de monarca, ele teria que privilegiar o sangue de qualquer maneira. Ele tinha que se casar com nobres de sangue, e não com nobres de cama. Por Domitila, ficou cego de paixão. Achou que, tal como os grandes reis franceses, poderia expor sua vida sexual, e que isso seria sinônimo de virilidade. Mas as revoluções liberais já varriam a Europa, e isso passou a ser visto como fraqueza. Ele teve uma inabilidade política muito grande, não se deu conta do descompasso. Estava atrasado. 

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