Cyndi Lauper é a versão brechó de Lady Gaga

Cyndi Lauper tem 57 anos, e sua empolgação e notável forma física podem até fazer a gente esquecer o essencial: ela está decadente. Seu show no Via Funchal, na noite de quarta, foi um show caído, derrubado. Não tanto pela queda de ritmo dos blues que ela incorporou ao seu repertório pop com o disco Memphis Blues (2010), nem tanto pela esquizofrenia que é passar de clássicos como Early in the Morning a platitudes pop como She Bop e All Through the Night. O problema é que Cyndi hoje soa como uma versão brechó de Lady Gaga ou uma tia solteirona da Avril Lavigne - sua vozinha infantil extemporânea e seu repertório pré-riot (características que inauguraram um certo tipo de punk pop feminino nos anos 1980) hoje não colam mais, não têm mais faíscas para iniciar incêndios.

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2011 | 00h00

No Via Funchal lotado, com mesas e garçons servindo, Cyndi conclamou a uma pequena rebelião, pedindo licença para subir nas cadeiras dos fãs e cantando no meio deles, sem frescuras. "Não machuquem uns aos outros", recomendou, e foi até a sua percussionista, a brasileira Lan lan, para pedir que ela traduzisse. E Lan Lan: "Não fiquem nos corredores e não obstruam a passagem".

A banda de Cyndi também não ajudava muito. Era meio burocrática, escorada em dois tecladistas e sem as presenças ricas dos convidados de seu disco (B.B. King, Allen Toussaint, Charles Musselwhite). Isso trouxe prejuízos - por exemplo: faltou uma harmônica em Just Your Fool (no disco, é o toque do grande Musselwhite).

Além de Lan lan, Cyndi chamou ao palco para acompanhá-la em algumas músicas o saxofonista carioca Leo Gandelman, que fez bonito solo em True Colors.

A plateia era surpreendente. Algumas garotas se vestiam como Cyndi em 1986, com saia rodada, botinha e meia soquete, cinto de "tachinha", lenço na cabeça, muitas pulseiras e detalhes em rosa. Algumas tinham os cabelos pintados de vermelho, mas a Cyndi de hoje era o oposto da de 1985: vestia calça e jaqueta de couro preto, tênis preto de jogging e só.

Nas três primeiras músicas do show, a voz de Cyndi estava quase inaudível, mancada da mesa de som. Isso foi sendo arrumado. Em algumas músicas, Cyndi tocava um appalachian dulcimer, instrumento de cordas que se toca deitado (como uma guitarra emborcada), e demonstrava boa habilidade como música. Mas, nos blues, falta a Cyndi o testemunho espiritual da dor e do lamento. Ela os torna afáveis, e não é o caso.

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