Merrick Morton/Divulgação
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A Rede Social enfoca a criação do Facebook para discutir os relacionamentos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2010 | 00h00

Em Cancún, em junho, havia grande expectativa por A Rede Social. Durante o evento conhecido como Sony Summer, a major costuma exibir suas atrações para jornalistas de todo o mundo. Mas A Rede Social não estava pronto e o próprio diretor, naquele fim de semana específico, estava na Inglaterra rodando cenas adicionais. Na ausência de David Fincher e de um filme completo para mostrar, compareceram os atores Jesse Eisenberg, Justin Timberlake e Andrew Garfield e o roteirista Aaron Sorkin. Eles deram entrevistas em dupla - Eisenberg e Sorkin, Timberlake e Garfield.

Para a mídia, Timberlake era mais interessante no segundo grupo, mas no dia seguinte a situação foi revertida, quando foi feito o anúncio de que o ator que faz o partner brasileiro de Mark Zuckerberg na criação do Facebook é o novo Homem-Aranha. Houve uma corrida atrás de Andrew Garfield, mas era tarde e ele já estava deixando o México. Timberlake, de qualquer maneira, está em campanha para conseguir uma indicação para o Oscar de coadjuvante. Talvez a consiga. A Academia de Hollywood estaria fazendo a coisa certa se A Rede Social for coroado com várias indicações para concorrer ao prêmio, inclusive nas categorias principais de melhor filme, diretor, roteiro e, por que não?, ator (Eisenberg).

David Fincher pertence a uma elite de grandes diretores que hoje está encastelada no cinemão. Da sua estirpe, existem poucos - o Christopher Nolan, de A Origem, por exemplo. Juntam-se aos dois, autores de um perfil talvez mais comercial, mas não menos provocativo ou arriscado, como James Cameron, que em Avatar criou um novo patamar de avanço tecnológico e de público, e M. Night Shyamalan, cujo Avatar (também) - o título foi mudado para O Último Mestre do Ar -, pelo contrário foi um fracasso retumbante (do ponto de vista da indústria, não da crítica que conta).

Seven, Clube da Luta, Zodíaco, Benjamin Button. Quando são grandes, os filmes de David Fincher são imensos - como A Rede Social. Ele conseguiu fazer o seu Cidadão Kane e o seu Rashomon, reinventando Orson Welles e Akira Kurosawa. Era o que dizia em Cancún o roteirista Sorkin. "O Facebook gostaria que a gente tivesse feito A Rede Social de um só ângulo, o de Mark Zuckerberg, mas essa nunca foi a intenção de David." Em seus maiores filmes, ele tem contado histórias de duplas e até trios. A Rede Social começa como a história de uma dupla e vira a de um trio.

Em princípio, um filme sobre a criação do Facebook poderia ser considerado de interesse limitado, mesmo que a rede social seja hoje a maior do mundo, com 500 milhões de usuários que a utilizam para se comunicar ao redor do planeta. O filme reconstitui essa história, mas com um interesse específico. Mostra como Zuckerberg e seu sócio brasileiro, Eduardo Saverin, criaram essa fantástica plataforma de comunicação e como Sean Parker se imiscuiu entre eles, destruiu uma amizade, mas consolidou o Facebook e transformou Zuckerberg no mais jovem bilionário (em dólares) do mundo.

Desde o começo, o Facebook tentou inibir a Sony - a empresa foi proibida de usar a marca ou qualquer ferramenta de A Rede Social para promover o filme. "O Facebook protege muito Mark (Zuckerberg) e tem bons motivos para isso", dizia Sorkin em Cancún. Seu interesse pelos bastidores da criação da rede bate com o roteiro que lhe deu projeção - o da série The West Wing, que também devassa a intimidade da Casa Branca. O filme toma como eixo a discussão jurídica, quando se busca um acordo no processo de separação litigiosa entre Zuckerberg e Saverin. Cada um vai dando sua versão dos fatos e ainda surgem os que acusam Zuckerberg de haver roubado a ideia pioneira de toda a operação, antes que ela virasse um negócio de bilhões.

O fantasma de Cidadão Kane ronda A Rede Social, não apenas devido à estrutura narrativa em forma de quebra-cabeça. O isolamento progressivo de Zuckerberg se assemelha ao de Charles Foster Kane, magnata da mídia impressa, em seu castelo de Xanadu. Isso termina conferindo uma estatura trágica ao personagem. Muita gente se queixa de que o filme projeta uma imagem talvez injusta do cara. Pode até ser, como personagem ele ficou muito melhor (leia crítica). O próprio filme termina por revelar as aptidões do diretor e do roteirista. Jesse Eisenberg diz que David Fincher, quando inicia a rodagem, já tem o filme todo na cabeça. Aaron Sorkin concorda com ele.

"Em geral, a gente escreve as cenas e tudo o mais se adapta a elas. David começa assim, mas daqui a pouco ele já está ajustando as cenas ao que sabe que será a montagem." Sobre os diálogos, propriamente ditos, Sorkin diz que ele é muito exigente. "Não quer que sejam apenas verídicos. É preciso ajustá-los ao ritmo dos atores, quando o elenco é escolhido." Exemplo disso, o espectador tem logo na abertura de A Rede Social - a ruptura de Zuckerberg com a namorada que vai desencadear toda a ação do filme. Se foi assim na realidade, é difícil determinar. Zuckerberg viu o trailer e comentou que era interessante. Sobre o filme, acrescentou que é uma "distração". É mais do que isso. Mais do que um filme sobre a criação do Facebook, A Rede Social é sobre relacionamentos. Um filme adulto envolvendo teens, coisa rara em Hollywood.

Trailer. Veja cenas de A Rede Social no site

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