Curtas reúnem brasileiros; conheça nosso homem em Locarno

Paulo Roberto de Carvalho que recebe e seleciona os filmes brasileiros que participam do festival internacional

Rui Martins, especial para o Estado,

14 de agosto de 2008 | 12h36

Um paulista, um recifense e um mineiro fazem parte do quarteto de cineastas de curtas-metragens, participantes da mostra de curtas Play Forward, do Festival Internacional de Locarno. São Gregório Graziosi, autor de Saltos, Daniel Aragão, autor de Solidão Pública, e Roberto Bellini, autor de Jardim Invisível. Faltou Carlosmagno Rodrigues, autor de Sebastião, o Homem que Bebia Querosene, ausente do festival, embora tenha seu filme exibido. Quem recebe e seleciona os filmes brasileiros que participam do Festival de Locarno é Paulo Roberto de Carvalho, criador de um festival latino-americano em Tuebingen, na Alemanha. Entre os diretores de curtas-metragens, Gregório Graziosi está terminando seu curso de cinema na Escola Armando Álvares Penteado, depois de Artes Plásticas na Escola Panamericana de Arte e Design, mas já teve o primeiro curta, Saba, exibido no Festival de Amsterdã e Cannes, sobre seus bisavós que, naquele momento, formavam um casal de centenários vivendo em São Paulo, imigrantes italianos no Brasil.  Saltos, seu segundo curta, estreou no Festival de Locarno, é um ´filme experimental sobre um atleta de salto ornamental que começa a perder a audição. Isso é contado através do som, diz Graziosi, pois qualquer falha auditiva afeta o equilíbrio e o atleta dessa categoria tem de dar o salto perfeito senão pode bater na plataforma e cair mal na água. O filme descreve a situação de maneira discreta, subcutânea, abstrata e, no final, o atleta está angustiado pois a piscina em que ele treina, a do Pinheiro, vai ser destruída para ser reformada´. O filme foi inspirado num quadro Big Splash, de um pintor inglês, um clássico das artes plásticas inglesas, no qual se vê um trampolim e na sua frente um esguicho d´água depois do mergulho de um atleta.  Seu novo curta é Phiro e consiste numa espécie de continuação de Saba, mas centrado no bisavó que se tornou viúvo. O curta ainda inédito já tem participação assegurada num outro festival, cujo nome Graziosi não revela. O filme Solidão Pública, de Daniel Aragão, já foi exibido no festival paulistano de documentário, É Tudo Verdade, em março, e num outro festival de Belo Horizonte. ´O filme é minha busca pessoal, diz Daniel, do formato documentário, que geralmente mostra resultados induzidos pelo diretor. Assim, coloquei 60 pessoas voluntárias de frente para câmera, num cabine religada a um telão numa praça pública. As pessoas ganhavam três reais para ficar três minutos diante da camera. Não há dialogo oral´, diz ele. Foi assim que algumas pessoas tiveram reações supreendentes, bem visíveis no telão da praça pública. Por sua vez, os expectadores, de tanto verem rostos, começam a se deter nos pormenores e nas linhas do rosto, coisa que geralmente não se vê. Daneil é um autodidata em cinema, tudo que aprendeu com trabalhando com o grupo do diretor Marcelo Gomes, de Aspirina, que - como ele diz - teve o grupo de colocar principiantes como assistentes de direção. Daniel já fez dois outros curtas, Conta-gotas, pouco exibido mas que já foi mostrado no Festival de Hamburgo. O segundo foi Uma Vida e Outra já exibido no Festival de Clermont-Ferrand, na França, na Eslováquia e em Brasília. Vai rodar um quarto curta em setembro e tem um longa ainda na fase de produção, cujo título vai ser Boa Sorte meu Amor, sobre uma menina que se perde em Recife de noite. Jardim Invisível, de Roberto Bellini, foi feito no Texas, no final do seu mestrado em transmedia de artes-plásticas, depois de ter se formado na universidade federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Ele retrata o bairro onde morava e a paisagem à noite, num estudo sobre a urbanização, como se articula a paisagem e se cria uma fantasia dentro dessa paisagem. Não há diálogo, e começa um citação do autor Italo Calvino sobre o interesse de pessoas observarem a sua própria ausência no lugar onde moram. Com a urbanização resta só o jardim imaginário criado por Bellini. Bellini trabalha como mais como artista plástico do que cineasta, já fez uns quinze vídeos, desenhos, instalações, esculturas. Alguns de seus vídeos circulam em festivais, porém outro só em galerias. Um deles, Teoria da Paisagem, esteve no museu de Vigo na Espanha. Antes de viajar para Locarno, tinha feito um exposição no Palácio das Artes, em BH, com mais três artistas. Nosso homem em Locarno A presença de tantos filmes brasileiros este ano no Festival de Locarno deve-se, em parte, a Paulo Roberto de Carvalho, criador de um festival latino-americano em Tuebingen, na Alemanha, e membro da seleção de filmes em Locarno, tendo feito viagens à América Latina em busca de novas produções. "Procuramos manter uma boa participação brasileira e latino-americana, em seções importantes do Festival, como a competição dos longas-metragens, cineastas do presente", diz ele. "Acho que este ano temos um boa representação do cinema autoral, uma boa parte busca uma proposta visual particular de diferentes regiões, sem se discutir os formatos, se são em digital ou em celulóide", afirma Carvalho. Sem brasileiros na competição principal  Chegamos a ver diversos filmes - conta Paulo Roberto - tanto para a competição principal como para exibição na Piazza Grande, achávamos importante um brasileiro ou latino-americano. Houve algumas propostas discutidas pela comissão de programa mas, no final, nenhum foi aceito. Não achamos que, neste caso, seja em conseqüência da proximidade com o Festival de Veneza, afirma. A maioria dos cineastas brasileiros prefere se inscrever em Veneza, que começa ainda no fim deste mês, e isso sempre dificultou a presença dos melhores filmes brasileiros. Marco Mueller o diretor que precedeu ao atual, Frédéric Maire, sempre se queixava disso e, numa tentativa de impedir que os rejeitados Veneza se inscrevessem, na última hora em Locarno, tinha estabelecido a regra de que uma inscrição em Veneza eliminava Locarno. Mas argumentava que, em Veneza, muitos filmes brasileiros teriam pequenas salas e horários matinais, enquanto em Locarno receberiam um tratamento preferencial. Hoje, Marco Mueller é diretor de Veneza e, segundo Paulo Roberto, existe um clima de ajuda mútua, ou seja, os festivais em acordo com os diretores promovem trocas de filmes para evitar que bons filmes brasileiros se percam. Marco Mueller, alemão filho de mãe brasileira, falava sempre no caso do filme Carlota Joaquina, que tanto desejara levar para Locarno e que não teve prêmio em Veneza. "Este ano, temos Filmefobia na mostra Cineastas do Presente, que se encaixa ali perfeitamente. Temos também o Pedro Urano, na Semana da Crítica, uma mostra escolhida por críticos, com a Estrada Real da Cachaça, tem o Gregório Acioli com Saltos, temos diversos cineastas brasileiros na mostra Open Doors. Há duas produtoras brasileiras, a Sara Silveira e a Katia Machado", diz Carvalho. "E, concorrendo com o curta-metragem Dez Elefantes, está a Eva Randolph. E, entre os jurados está o cineasta Cao Guimarães que trouxe também seu filme Andarilhos", conclui.

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