Curtas-metragens tiram Huck do ar no Sul

O antigo apresentador de tevê Abelardo Barbosa, o Chacrinha, costumava dizer que, em televisão, nada se cria, tudo se copia. A prova está na briga pela audiência dos sábados (e em outros dias). O carrasco da Globo tem sido, invariavelmente, o veterano Raul Gil, da Record, que não dá folga ao programa Caldeirão do Huck, da Globo. Um pouco mais abaixo, tanto no ibope quanto na qualidade, O Programa do Mallandro, na Gazeta, corre por fora. São brigas antigas, com velhas atrações, ainda que, no caso de Luciano Huck, ela venha com uma falsa embalagem, como se fosse algo inédito. Enquanto outros estados digladiam-se com as armas da mesmice, o Rio Grande do Sul resolveu contrariar a máxima e usar uma matéria-prima difícil de encontrar na tevê: a criatividade. Depois de perder seguidas brigas pela audiência, a RBS, retransmissora da Globo no Sul, criou em abril deste ano o programa Especial Curtas Gaúchos, que exibe curtas-metragens no horário que antes pertencia ao Caldeirão do Huck. "Resolvemos fazer um programa experimental, para sentir a resposta do público", conta Gilberto Perin, coordenador de programas especiais da RBS e ele mesmo diretor de alguns curtas. A transmissão do Caldeirão do Huck é optativa na grade local. A idéia era apresentar curtas feitos por gaúchos e, no início, todo mundo duvidou. "As pessoas diziam `curta-metragem na tevê é coisa de emissora estatal´, ninguém levou a sério", conta Alice Urbin, produtora do programa. Os especialistas em audiência eram os mais radicais. "Eles achavam loucura exibir curtas para concorrer com programas de auditório, de apelo fácil", conta ela. Patrocínio em alta - Mas o programa estreou e, para surpresa de todos, em alguns momentos teve picos de 15 pontos no ibope, superando em um ponto a tão acirrada concorrência. E, o que é melhor, agradou especialmente os potenciais patrocinadores. "Em pouco tempo, vendemos todas as cotas de patrocínio até o fim do ano e o programa ficou garantido", conta Perin. "Decidimos ousar e acho que deu certo", completa. O curta de estréia foi Ilha das Flores, de Jorge Furtado, o mais premiado e conhecido curta-metragem brasileiro. Além dos prêmios nacionais, como o do Festival de Gramado, venceu em sua categoria nos festivais de Berlim e Havana, entre outros. Mas afinal, qual o segredo do sucesso? "É difícil saber, mas com certeza a maioria dos telespectadores cansou da mesmice", afirma Alice. "Fazemos uns comerciais diferenciados, como se fossem trailers de cinema e acho que isso tem agradado o público", especula Perin. Além de exibir curtas, a dupla também promove debates com os diretores antes da exibição dos filmes. "Nossa maior dificuldade agora é que não há uma produção de curtas de qualidade para garantir o programa por muito tempo", preocupa-se Alice. Saídas criativas Perin garante que a RBS é a emissora que mais usa o horário opcional da Globo. Antes dos curtas, temos um programa inteiramente dirigido ao público jovem, chamado Patrola. Além deste, há também o Galpão Crioulo, voltado ao universo da música regional, e que já está no ar há 18 anos. Tanta criatividade acaba tendo suas recompensas. Em fevereiro deste ano, a RBS foi premiada nos Estados Unidos como a melhor emissora regional pela National Association of Broadcasters.

Agencia Estado,

24 de setembro de 2000 | 15h33

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