Curtas em mostra desigual

E o provocativo longa O País do Desejo fala de ciência e religião no Festival de Gramado

Luiz Carlos Merten / GRAMADO, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2011 | 00h00

Mais de 300 curtas foram submetidos à comissão de seleção do Festival de Gramado. O curador, o crítico gaúcho Hiron Goidanich, selecionou 16. O primeiro programa de curtas foi exibido na segunda. Quatro títulos desiguais, incluindo A Verdadeira História da Bailarina de Vermelho, de Alessandra Colasanti e Samir Abujamra, que já havia sido apresentado no Festival do Rio do ano passado, como complemento de Luz nas Trevas, de Helena Ignez.

Os dois filmes - ambos conceituais - dialogavam perfeitamente. Ontem, a Bailarina ficou confinada num programa muito desigual. "Pretensioso" foi a menor das críticas que o filme recebeu. Alessandra é filha da escritora Marina Colasanti. Ela criou a personagem, a Bailarina, para encarar questões relativas à arte moderna. Mais do que pretensioso, porque a palavra carrega sempre um componente negativo, o filme é ambicioso. Possui camadas de linguagem e interpretação.

A bailarina circula entre artistas e teóricos da arte contemporânea. Vira um hit da internet e do mundo acadêmico. Desaparece no carnaval carioca. A personagem, tal como é interpretada pela própria Alessandra, possui uma carga irônica muito forte. O filme tem ecos de Woody Allen (Zelig), Alain Resnais (Meu Tio da América) e até Jorge Furtado (A Ilha das Flores). Destoava tanto do primeiro lote de curtas da programação que foi lançado na vala comum, à qual não pertence.

Havia grande expectativa pelo concorrente brasileiro da segunda à noite, na mostra de longas, O País do Desejo. Paulo Caldas pertence à nova geração de cineastas do Recife. Ele codirigiu Baile Perfumado com Lírio Ferreira e fez sozinho Deserto Feliz, que ganhou muitos prêmios aqui em Gramado, há alguns anos. O cinema pernambucano possui uma ressonância estética, por certo, mas o componente social é sempre muito forte. Caldas surpreendeu pela mudança de tom.

Ele fez um filme sobre a elite, misturando ciência e religião. A pianista Maria Padilha está morrendo por uma insuficiência crônica dos rins. Ela é operada pelo doutor Gabriel Braga Nunes, que tem um irmão padre, Fábio Assunção. O religioso provoca a ira do bispo por apoiar o aborto de garota estuprada pelo tio. O caso é real e movimentou o Brasil, mais do que o Recife. Atua como deflagrador de uma crise de vocação do padre. Ele se apaixona pela música.

Alguns críticos levantaram uma questão de ordem no debate. O filme nasceu como um projeto de atriz. Paulo Caldas, como autor, não estaria presente. Ele foi veemente - disse que nunca foi mais Paulo Caldas e encerrou a questão. Assumiu que o que lhe interessava era a história de amor. Putting melos into drama, Vincente Minnelli e Douglas Sirk. Caldas, um diretor de melodramas? A proposta é essa, mas ele não perdeu a provocação nem a safadeza.

O País do Desejo é desconjuntado - para dizer-se o mínimo -, mas tem uma cena ótima. Há uma japonesinha fashion que vem ser a enfermeira da mãe de Fábio e Gabriel. Ela está em coma profundo. A garota é libertária, curte mangás eróticos. Na tal cena, ela come as hóstias preparadas pela doméstica como se fossem fritas, mergulhando-as no ketchup. O amor prevalece sobre a intolerância. Existe esperança para a elite brasileira?

Las Malas Intenciones, da peruana Rosario Garcia Montero, também trata da elite do seu país. Uma menina, filha única, surta ao receber a notícia de que vai ter um irmãozinho. O filme constrói-se do ponto de vista dela, num momento emblemático, os anos de 1982 e 83, quando o Sendero Luminoso está atacando em Lima. A menina é uma pequena "malvada" (lembre-se do clássico de Joseph L. Mankiewicz). Rosario, como Carlos Saura (Cria Cuervos), não tem ilusões sobre a inocência da infância. A menina que interpreta o papel lembra muito Ana Torrent, do filme de Saura. Mas Ana também fez O Espírito da Colmeia e, como no filme de Victor Erice, a menina de Las Malas Intenciones viaja entre fantasmas de sua imaginação. É muito interessante.

LATINOS

Inconvenientes

Já virou o tormento dos críticos, e não é de hoje. Gramado não atrai muitos representantes das equipes dos filmes estrangeiros. Não veio ninguém representando Las Malas Intenciones. Não houve debate sobre o filme e, para complicar, a cópia de vídeo não permite avaliar a qualidade da fotografia. Pior - o concorrente mexicano, A Tiro de Piedra, passou numa cópia de trabalho, com o selo do Instituto Mexicano de Cinematrografia no centro da imagem. E, mesmo assim, os filmes latinos ainda estão melhores.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.