Curtas,Conflitos e mitos

BRASÍLIA

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2010 | 00h00

A mostra de curtas continua a trazer filmes interessantes, embora nenhum ainda pareça excepcional. Boa surpresa foi Acercadacana, de Felipe Calheiros (PE), sobre a extinção das pequenas propriedades na Zona da Mata de Pernambuco sob ação das grandes usinas de cana de açúcar. O filme mostra como pequenos proprietários foram "convidados", por meios nada civilizados, a deixar lotes de terras ocupados por suas famílias há gerações. Ouve personagens, a principal sendo dona Maria Francisca, sertaneja disposta, que defende seu meio hectare como uma leoa. O mérito não é só focar situação de injustiça, mas explicitar relações de poder no conflito de forças desiguais. É filme político. Feito por jovem, o que significa que nem tudo está perdido.

Braxília, de Danyella Proença (DF), traz um personagem incrível, o poeta e agitador cultural Nicolas Behr. Com longos cabelos contraculturais, Behr deixou Cuiabá nos anos 70 e mantém com Brasília um caso de amor crítico. Acha que a cidade é uma utopia traída e toda vez que ela respira segundo sua inspiração original torna-se "Braxília", um não-lugar feliz. Sua vocação melhor é a intervenção poética e o filme traduz graficamente essa disposição de espírito. Outro filme da cidade, Falta de Ar, de Érico Monnerat, volta ao tempo da ditadura. Faz um paralelo entre um personagem que agoniza por problemas respiratórios e presos torturados com afogamento.

Matinta, de Fernando Segtowick, é o primeiro curta paraense a concorrer em Brasília e vem impregnado de espírito amazônico. Filmado na floresta, traz a lenda da Matinta-Perê (Matita, segundo variante), ser imaginário que pode adotar diversas formas ao atacar as pessoas. No elenco, a paraense Dira Paes, musa do cinema independente brasileiro. O filme é bem singelo.

BASTIDORES

Filme encruado

Hollywood no Cerrado, dos professores da UnB Armando Bulcão e Tania Montoro, pode ser considerado o filme mais encrencado dos últimos tempos no Distrito Federal. Anunciado na programação do ano passado, não foi exibido. Neste ano, a mesma coisa. Estava programado para o Cine Brasília, mas será lançado apenas em DVD pois a cópia não ficou pronta. O tema: atrizes de Hollywood que compraram fazendas em Goiás, nos anos 40 e 50, nas quais vieram residir na aposentadoria.

Palanque

Brasília continua seguindo uma chata tradição dos festivais: equipes enormes sobem ao palco para apresentar seus filmes, fala-se demais e abusa-se da paciência do público. Mas o recorde de falatório aconteceu com uma equipe reduzida, a do curta Acercadacana, de Felipe Calheiros. A personagem do filme, a agricultora Maria Francisca, que vê seu sítio ameaçado por uma usina de cana, transformou o palco em palanque. Ela tem razão nas denúncias, mas falou tanto que quase levou o público ao desespero.

Reforma urbana

Muito se falou sobre reforma agrária no debate de Acercadacana. Mas veio à tona também a depredação das cidades brasileiras pela especulação imobiliária. Durante o debate, o diretor Felipe Calheiros falou de um interessante projeto coletivo que está sendo levado no Recife, uma das cidades-vítimas da predação. O projeto foi batizado de Torres Gêmeas: artistas conhecidos e anônimos são convidados a enviar para o site www.projetotorresgemeas.wordpress.com imagens e vídeos mostrando intervenções imobiliárias desastrosas. O material será editado e transformado em filme, sem que o montador saiba quem são os autores das imagens. O título vem da dupla de arranha-céus construída no bairro de São José, emblema da filosofia de expansão imobiliária adotada pela cidade.

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