Curitiba: Fringe revela boas surpresas

Termina no domingo o 11.º Festivalde Teatro de Curitiba, que chega amanhã ao décimo dia deprogramação com a estréia, na mostra principal, de Só Mais umInstante, peça de Marta Góes, dirigida por Elias Andreatto.Marta assina também o texto de Um Porto para ElizabethBishop, um dos destaques da edição anterior do festival, o quejustifica a boa expectativa em torno da montagem. Além disso,quem já leu essa nova peça, garante que a dramaturga aborda comsensibilidade e delicadeza o universo dos jovens e suasinquietações.Está próximo o fim da maratona teatral que, no cálculodos organizadores, propicia uma média de 468 horas derepresentação nos palcos da cidade em 12 dias de evento. Algunscancelamentos de última hora na mostra paralela acabaramcompensados por sessões extras, não alterando significativamenteessa previsão. Só no Fringe estavam programadas 136 peças, cadauma delas fazendo de duas a oito apresentações. Como nos anosanteriores, não há qualquer seleção nessa mostra. E vê-se detudo.Desde grupos recém-fundados em escolas - de teatro ou doensino regular - que parecem fazer sua primeira experiênciadiante de uma platéia, passando por grupos amadores com prêmiosacumulados no circuito de festivais do gênero, até peçascomerciais, com carreira de sucesso em seus Estados.Mas sempre surgem algumas pérolas em meio a esseemaranhado. E, quando aparecem, não é difícil entender por quese destacam. Mesmo diferentes em temas e estética, essasmontagens têm algo em comum - um longo período de elaboração,busca de linguagem e, mesmo que de forma indireta, a orientaçãode um mestre com mais experiência e domínio da arte teatral.Um desses destaques, Hysteria, o público paulistanopoderá conferir a partir do dia 15 de abril, quando a montagemestréia no histórico palacete da Faculdade de Arquitetura da USP, em Higienópolis.Sob direção de Luiz Fernando Marques, com cinco ótimasatrizes no elenco, o Grupo XIX, foi fundado em 2000 durante umcurso de direção ministrado por Antônio Araújo (Teatro daVertigem). Durante um ano, Marques e as atrizes trabalharam amontagem baseada numa pesquisa sobre mulheres brasileirasinternadas em asilos psiquiátricos sob o diagnóstico de"histéricas" na virada do século 19 para o século 20. "O Tó(Araújo) acompanhou o processo de criação. A gente iaexperimentando a partir da pesquisa, ele passava lá, descartava, coisas, estimulava o aprofundamento de outras", comenta Marques, também responsável pela dramaturgia.O espetáculo foi apresentado em Curitiba num casarão doséculo 18. Já na entrada, homens e mulheres são separados. Osprimeiros ocupam uma arquibancada e são "espectadores" da açãoque se passa na sala do "asilo" onde as mulheres da platéiasão acomodadas e com as quais as atrizes interagem. O que se vêa partir daí é um espetáculo a um só tempo delicado e comovente,que a partir das recordações, inquietações, angústias e desejosdaquelas mulheres, vai aos poucos desvendando os padrões sociaise comportamentais contra os quais elas se rebelaram e foram acausa de sua alienação. "É um espetáculo comovente! Um elogio àmulher em sua fragilidade, sem nenhum sentido pejorativo nessetermo", comentou o ator Alexandre Roit, emocionado, ao fim daapresentação.De forma diferente, porém igualmente elaborada, esseembate do universo feminino entre fragilidade no campo social eforça individual é abordado em Os Camaradas, outra boamontagem do Fringe, desta vez com a Cia. Carona, de Blumenau(SC). A história criada a partir do texto Os CamaradasMédicos, de Giba de Oliveira, é bastante simples - numrigoroso inverno da Eslováquia, um homem desempregado"empresta" sua mulher para os "camaradas" do partido emtroca de comida para ambos.O grupo havia realizada uma montagem curta, mais simples, desse texto, com direção e dramaturgia de Alfredo Megna. Ao vero trabalho, o diretor argentino Pépe Sedrez percebeu o potencialartístico que ali apontava e ofereceu-se para ampliar amontagem.O que se viu em Curitiba foi o resultado dessa parceria.No centro do palco, apenas dois bancos e uma mesa tosca, sobre aqual repousa uma panela e pratos de alumínio. Com os rostosinteiramente cobertos por uma maquiagem cinza, tom que se repetenas roupas, três homens e uma mulher revezam-se nos papéis eexecutam a trilha simples e eficiente do espetáculo. Na maiorparte do tempo, utilizam um idioma incompreensível, criado apartir de sonoridades dos idiomas russo e alemão. Essencial naqualidade da montagem é como conseguem criar uma escrituracênica original sem detrimento de nuances psicológicas e dascontradições dos personagens. E ainda escapar ao maniqueísmo decontrapor homens brutos versus mulher frágil. Com apenas 50minutos de duração e poucas palavras inteligíveis, os atorestraçam um desenho preciso da deterioração na relação do casal.Sem o mesmo grau de elaboração, merece destaqueDevorateme, da companhia curitibana Senhas de Teatro, porfugir do drama social e transformar em linguagem temas darealidade brasileira, desde o dia-a-dia de meninas prostitutasaté a angústia de mães tentando avistar seus filhos em rebeliõesda Febem. Não são as únicas boas montagens do Fringe, mas sedestacam por não se restringirem a "contar uma boa história",mas sim pela busca por "formas teatrais" de contar suashistórias.A repórter viajou a convite do festival

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