Curadoria do Festival de Gramado aposta em mulheres fortes

'Vingança', de baixo orçamento, é um policial psicológico que não inova grande coisa como produto artístico

Luiz Carlos Merten, enviado especial,

12 de agosto de 2008 | 13h58

Há uma curadoria não muito difícil de detectar nos filmes que estão sendo exibidos no 36.º Festival de Cinema Brasileiro e Latino. Os curadores José Carlos Avellar e Sérgio Sanz fizeram sua seleção privilegiando filmes que expõem a tensão criativa entre tecnologias tradicionais e novas. Coincidentemente, ou não, esses filmes também apresentam uma preferência temática, por personagens femininas fortes. Tudo isso é verdade, mas após a segunda noite da programação, os críticos já desconfiam de que falta um ingrediente – a qualidade que justificaria a presença de (pelo menos) alguns dos títulos selecionados no festival. O concorrente argentino Por Suas Proprios Ojos, de Liliana Paolinelli, abriu a mostra competitiva latina, na segunda-feira, 11,  à noite. O filme mostra garota que realiza documentário sobre mulheres de presos, como trabalho de conclusão de curso. Ela busca mulheres para dar depoimentos. Por meio de sua relação com a mãe de um deles, ela chega ao próprio presidiário, com quem tem um envolvimento sexual. A diretora armou um berço do qual não consegue achar a saída. Sua ficção é mesclada de elementos documentários. Como documentário, Gramado viu, anos atrás, filmes brasileiros que encaram o tema de forma mais direta. Como ficção, a investigação sobre o universo carcerário feminino não tem metade da força de Leonera, de outro argentino, Pablo Trapero, que integrou a competição em Cannes, em maio. Liliana quis, obviamente, discutir a questão ética da autoria. Fica a meio caminho. Na seqüência, foi exibido o brasileiro Vingança, de Paulo Pons. O diretor desembarcou na serra gaúcha com uma moçada bonita e entusiasmada – seus atores e atrizes – e também uma proposta, a de fazer filmes de baixíssimo orçamento. Não é o BOAA, baixo orçamento e alto astral, de Domingos Oliveira, que assume o baixo custo por meio do tom confessional e de um certo amadorismo. Pons quer fazer filmes narrativos para o mercado. Sua tática consiste em disfarçar que o filme é de baixíssimo orçamento. Vingança é um policial psicológico. Como produto industrial, é razoavelmente realizado e interpretado, ponto para o diretor e p(r)onto para o mercado. Como produto artístico, não inova grande coisa nem possui indagações políticas existenciais e políticas que justifiquem sua presença na competição.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.